O prato à mesa já não é mais exatamente o mesmo. E no carrinho de supermercado, quanta diferença! Em tempos de crise, inflação em alta e desemprego crescente, o brasileiro mudou de forma significativa os hábitos de compra.
 
Dados inéditos da Dunnhumby, multinacional inglesa especializada no comportamento do consumidor e parceira do Grupo Pão de Açúcar no país, revelam que um terço dos brasileiros economiza em produtos mais básicos para manter pequenos luxos.
 
Com o avanço do dragão, o levantamento detectou uma nova equação na qual a dona de casa escolhe onde poupar e onde gastar mais. Ou seja, as pessoas poupam em alguns itens da cesta para poder “compensar” em outros.
 
De acordo com a Dunnhumby, o mesmo comportamento foi observado na Europa durante a turbulência econômica iniciada em 2008.
 
“Trata-se de um novo consumidor, que não quer abrir mão de seus ganhos de padrão de vida, conquistados durante a última década. Trocando de marca ou optando por embalagens menores em algumas categorias básicas, ele pode gastar mais em outras menos essenciais”, afirma o diretor-geral da Dunnhumby no Brasil, Adriano Araújo.
 
Segundo ele, a mudança não é exclusiva das classes C e D. “Esse comportamento acontece em todas as classes sociais, manifestando-se de forma diferente de acordo com a renda do consumidor”, diz.
 
Assim, o brasileiro da parte de baixo da pirâmide vem fazendo trocas de mercadorias da cesta, comprando produtos mais baratos em que a marca não importa tanto – como itens de limpeza, higiene oral e farináceos – para encaixar no orçamento refrigerante, frios, sobremesas, ou mesmo a marca preferida do arroz.
 
O movimento se repete entre os mais abastados, embora em diferentes categorias. A pesquisa aponta que os brasileiros das classes A e B economizam em massas secas, laticínios e itens de mercearia em geral para manter seus gastos em cereais saudáveis, doces, sobremesas e bebidas.
 
Substituição
 
Outro exemplo citado na pesquisa envolve aves e bovinos. O consumidor tende a trocar parte do consumo de boi por cortes de aves, ao invés de levar peças de segunda.
 
“O brasileiro está mais consciente e prefere gastar onde realmente importa para ele”, diz Araújo.
 
Diante dos preços mais salgados, o engenheiro Gilson Compagno diz que nem sempre leva para casa tudo o que estava acostumado.
 
“Tento reduzir a quantidade e às vezes troco por um similar mais em conta”, revela. Segundo ele, as marcas prediletas de atum, açúcar, feijão e leite condensado foram substituídas. Mas o pão de queijo e os vinhos importados são itens que Compagno mantém na dispensa.
 
Almoço fica menos vermelho com a disparada da carne
 
O dragão não escolhe cardápio. Na versão tradicional ou light, almoçar ficou mais caro para o brasileiro. O preço do bife de todo o dia está bem mais salgado. Se a opção for alcatra, a elevação nos últimos 12 meses atingiu 11%.
 
Já a escolha pelo filé mignon implica um gasto 18% maior. Custos que pesaram no bolso e que modificaram os tons da refeição à mesa.
 
“O prato está menos vermelho”, afirma o superintendente da Associação Mineira dos Supermercados (Amis), Adilson Rodrigues.
 
Segundo ele, o setor supermercadista já percebeu um recuo nas vendas de carnes bovinas. Ovos, frango e carne de porco, em contrapartida, subiram na preferência.
 
“Naturalmente, o consumidor vai fazendo escolhas e substituindo produtos. Mas de alguns itens ele dificilmente abre mão. Enquanto puder, espreme para que determinado produto continuar cabendo no orçamento”, afirma.
 
Quem opta por uma dieta mais saudável também está vendo a conta bancária ficar mais magrinha.
 
O arroz integral subiu 7% de julho do ano passado até agosto. Já a escalada do salmão, segundo proprietários de restaurantes, chegou a 35% no período.
 
“Mesmo mais caro, tento manter peixe e orgânicos no menu”, brinca o empresário Massaud Paolinelli, que costuma ir às compras com a amiga Lia Soares, uma “caçadora” de promoções. A engenheira Rosângela Braga também passou a ficar de olho nas ofertas para não ter que alterar o cardápio.
 
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