A quantidade de exames médico e psicotécnico, teórico e de direção para a tão sonhada carteira de habilitação está em queda em Minas Gerais. De janeiro a maio deste ano, o número caiu 10% comparado ao mesmo período de 2014, quando houve 1,7 milhão de testes. Reduziu também a emissão da primeira habilitação em 2015: 13% a menos que no ano passado.

Foram 174,3 mil exames a menos nos cinco primeiros meses de 2015. O que mais pesou foi o valor pago pelos candidatos com taxas e aulas da autoescola. No ano passado, o processo custava em média R$ 1.390 para quem era aprovado no primeiro teste de rua. Passou para R$ 1.770 em 2015, reajuste de 27%.

A depender do número de alunos matriculados nas autoescolas de Belo Horizonte, a tendência é a de que os exames despenquem. De acordo com o Sindicato dos Proprietários de Centros de Formação de Condutores (SiproCFC), as novas matrículas reduziram 40% neste ano.

“Foram acrescentadas cinco aulas de direção na carga horária obrigatória, que era de 20, e houve reajuste no valor do combustível. Já sentíamos o reflexo da crise no ano passado, e ficou mais acentuado agora”, enfatizou o presidente do SiproCFC, Rodrigo Fabiano da Silva. Segundo ele, a queda começou a ser percebida após o Mundial de 2014. De junho a dezembro daquele ano, foram feitos 2.420.619 exames no Estado, contra 2.759.135 no mesmo período de 2013, queda de 12%.

Sonho distante

Dependendo dos rumos do cenário econômico, o porteiro Fábio Santos Modesto, de 28 anos, ficará sem a carteira de motorista por falta de dinheiro para concluir o processo de habilitação, que vence em outubro. Ele fez o primeiro exame de direção em fevereiro, depois de já ter desembolsado R$ 3 mil.

Reprovado, Fábio não teve condições de arcar com os custos para uma segunda tentativa. “Neste mês, nem pensar. Tenho outras prioridades e as coisas de casa também encareceram. Vou marcar em agosto, mas se eu não passar, ficará ainda mais apertado por causa do prazo”.

A balconista Patrícia Cristina de Almeida, de 23 anos, desistiu de ser habilitada. Ela deu entrada no processo em 2013, mas não conseguiu concluir depois de pagar cerca de R$ 1 mil de taxas e aulas. No início deste ano, Patrícia tentou retomar o sonho, mas o valor orçado nas autoescolas, em torno de R$ 1.800, a fez deixar o plano de lado. “Tenho outros afazeres”.

Preparação

O dinheiro escasso também pode comprometer o rendimento dos candidatos. De acordo com Rodrigo Fabiano, o ideal é que o aluno faça de 40 a 50 aulas práticas para o primeiro exame de direção. Porém, a maioria não está conseguindo comprar mais do que as 25 obrigatórias. Dessa forma, mais candidatos são reprovados.

De acordo com o especialista em trânsito Márcio Aguiar, professor da Fumec, a redução nos exames também alerta para a necessidade de mais fiscalização no trânsito. Ele reforça que condutores sem carteira de habilitação sempre existiram.

O especialista ressalta que os órgãos fiscalizadores precisam ficar atentos ao reflexo nas ruas da queda do número de exames. “Já temos um índice alto de reprovações nos testes, ainda não sabemos se a culpa é de quem avalia ou de quem ensina. Mas se os candidatos não estão preparados, imagine quem está ao volante sem ser habilitado de fato?”.

Desafio das autoescolas é criar alternativas para atrair alunos

Com a queda no número de matrículas, autoescolas de Belo Horizonte buscam alternativas para atrair alunos. A dispensa de funcionários começa a acontecer, na tentativa de equilibrar as finanças.

“Temos recebido menos dinheiro e mais cartão de crédito. Os alunos estão parcelando em mais vezes os pacotes para darem conta de pagar pelo sonho de ter a carteira de motorista”, destacou o diretor do Centro de Formação de Condutores (CFC) Millenium, Rodrigo Procópio.

A autoescola decidiu fazer promoções, dividir os pacotes em até dez vezes sem juros e dar aulas de brinde. Foi preciso alterar o quadro de funcionários, com três profissionais a menos.

“As pessoas têm outras prioridades, e tirar a carteira de motorista não é a principal delas. Estamos fazendo o que podemos para equalizar o quadro e não sermos tão afetados com a crise econômica”, afirmou o diretor.

2016

Para os motoristas que forem adicionar ou renovar carteira de habilitação nas categorias C, D e E, a situação só deve piorar. A partir de janeiro de 2016, esses condutores terão que desembolsar mais para ter o documento em mãos.

Caso não haja novo adiamento, o processo ficará de R$ 250 a R$ 290 mais caro. O aumento se deve à obrigatoriedade do exame toxicológico, conforme resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).

“O custo será integralmente para o candidato”, reforça a diretora do Detran de Minas Gerais, Andrea Vacchiano. Ela garante que o órgão já está apto a cumprir a legislação a partir do próximo ano.

1,5 milhão foi a quantidade de exames de legislação e direção feitos em minas entre janeiro e maio deste ano