O Centro de Belo Horizonte ficará sem o Bike BH, programa de aluguel de bicicletas laranjas a preço popular, a partir do próximo mês. Edital finalizado em 11 de março não atraiu interessados em gerenciar a iniciativa. A empresa hoje responsável pelo serviço, em contrato firmado com a prefeitura, até se habilitou, mas apenas para administrar as “magrelas” compartilhadas na Pampulha. 

A intenção do município, no entanto, era ampliar as atuais 40 áreas de embarque e desembarque (34 na Centro-Sul) para 140 e contemplar toda a cidade. 

Atual gestora do programa, a Serttel decidiu se candidatar a apenas um dos nove lotes disponibilizados no certame alegando “falta de viabilidade financeira e técnica devido ao patrocínio aliado à baixa procura de usuários nas demais regiões”. Patrocinador do projeto, o banco Itaú, sem dar mais detalhes, disse que só concederá o auxílio até 9 de abril, quando o contrato com a PBH será encerrado.

Integrante do BH em Ciclo, Mariana Oliveira, de 27 anos, lamenta. “Existem pessoas que usam a bicicleta compartilhada para evitar o transporte público. Se não há interesse de empresas, é dever do poder público fazer um esforço para continuar o serviço e contribuir para melhorar a mobilidade da cidade”, afirma a ciclista, que também é usuária do Bike BH.

Apesar de a empresa particular Yellow atuar, desde janeiro deste ano, com sistema similar, os usuários alegam diferença nos preços cobrados por ela e pelo Bike BH. Na primeira, o valor para cada dez minutos de uso da bicicleta é de R$ 1. No programa da prefeitura, a diária custa R$ 3 e o plano mensal, R$ 9.

A BHTrans disse, ainda, que o sistema de bikes compartilhadas enfrenta um momento de transição, com a introdução da oferta da modalidade sem estação. O serviço passará por ajustes

Novo certame

De acordo com a BHTrans, um novo edital para o sistema de compartilhamento com estações para retirar e estacionar as bikes ainda pode ser lançado. Porém, da divulgação do documento até a homologação da empresa vencedora, o processo poderá levar cerca de cem dias. 

A autarquia acredita que, havendo demanda, o sistema sem estação (com a possibilidade de deixar os equipamentos em qualquer lugar) possa atender aos usuários.

Entretanto, aberto em janeiro deste ano, o certame que vai definir os responsáveis pelo modal receberá propostas até 21 de maio. Por enquanto, segundo a BHTrans, não houve interessados.

Mobilidade

Professor do Departamento de Engenharia de Transportes da UFMG, Guilherme Leiva defende as bicicletas compartilhadas como solução à mobilidade urbana da capital. “É uma opção de um trânsito mais humano e sustentável”, diz. 

Para maior eficácia do sistema, o docente destaca a importância de integração com os meios de transporte convencionais como ônibus e metrô. 

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de BH foi procurado, mas não comentou sobre a integração. Já a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) informou que os ciclistas podem embarcar com as bikes nas 19 estações a partir de 20h30, de segunda a sexta-feira. Aos sábados, a entrada é permitida após as 14h. Não há restrições aos domingos e feriados.

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Por causa de ciclovias com buracos, David Duarte prefere pedalar na rua, ao lado de carros 

Entraves

Com a intenção de expandir o uso de bicicletas na metrópole, a prefeitura ainda tem desafios a superar. Condições irregulares de ciclovias, estrutura viária insuficiente e ruas em aclive são alguns deles. 

Hoje, BH tem 89,93 quilômetros de rotas cicloviárias. O Plano de Mobilidade do município prevê que, até 2020, a extensão chegue a 400 km. Apesar da meta, a regional Nordeste, por exemplo, ainda não conta com espaço destinado exclusivamente às magrelas. 

De acordo com a BHTrans, está aberta uma licitação que visa a contratação de empresa que irá revisar as áreas existentes e elaborar projetos para mais 52 quilômetros de ciclovias até o fim do primeiro semestre de 2019.

De acordo com a BHTrans, uma licitação em andamento prevê a revisão das ciclovias existentes, inclusive com as manutenções necessárias e a elaboração de mais 52 quilômetros de áreas exclusivas para as pedaladas

Nas regionais em que há pistas exclusivas para o pedal, sobram reclamações. O motorista de aplicativo David Duarte, de 27 anos, pedala todos os dias na avenida Vilarinho, em Venda Nova – mas em meio aos carros. “O asfalto da ciclovia é ruim, com muitos buracos e desnivelado. E ainda tem quem use a pista para caminhada. Se isolasse só para bicicleta seria melhor”.

No Barreiro, problema também na avenida Afonso Vaz de Melo. Apesar da sinalização com placas e no solo, ciclistas dividem a faixa com pedestres. 
Morador do bairro Tirol, Antônio Augusto, de 58 anos, se incomoda com a falta de rotas. “É preciso ampliar as áreas por aqui. São poucas opções e em péssimo estado”, reclama. 

A condição ruim dos espaços exclusivos leva os ciclistas a se arriscarem em meio aos carros, afirma o consultor de trânsito e transporte Osias Baptista Neto. “Além disso é preciso pensar na topografia da cidade. Quem pedala descobre caminhos mais planos, sem morros, fora das ciclovias, e não necessariamente haverá faixas exclusivas nessas rotas alternativas”.

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