Acolhimento é palavra de ordem nos ambulatórios mineiros criados para atender às pessoas trans ou com identidade de gênero diferente do sexo biológico. Chamados pelo nome social, os usuários não apenas são respeitados, mas têm a garantia de acesso ao tratamento gratuito com psicólogos, ginecologistas, clínicos e, principalmente, endocrinologistas.

Na quarta reportagem da série sobre os 30 anos do Sistema Único de Saúde (SUS), o Hoje em Dia mostra como é a rotina nas unidades públicas transformadas em uma ala da cidadania LGBT. Em Minas, existem dois espaços: em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e na região do Barreiro, em Belo Horizonte. 

O primeiro foi criado em 2016 e o segundo, no ano passado. Desde então, 2.378 pessoas passaram pelos ambulatórios. O trabalho humanizado e a dedicação dos profissionais envolvidos é o que garante o sucesso do programa, considerado novidade para muitos e refúgio para outros. 

Em BH, o trabalho acontece às quintas-feiras, no Hospital Eduardo de Menezes. Pelo menos 20 atendimentos são registrados a cada semana, conforme agendamento. O tratamento hormonal, essencial para as mudanças no corpo, é o mais procurado, como explica a psicóloga Andreia Resende, especialista no atendimento ao público LGBT. “O que a gente observa é que nem todos os que procuram o ambulatório têm a demanda cirúrgica. Eles buscam a tecnologia da hormonização”, diz.

Veja o vídeo:


 

Segundo ela, as unidades básicas de saúde dos bairros devem ser a porta de entrada no sistema, encaminhando os usuários para o ambulatório. “Trabalhar com essas pessoas me possibilitou desmistificá-las. Porque, às vezes, se pensa que as pessoas trans só estão na prostituição. Algumas estão, mas elas têm casa, emprego e relacionamentos como todas as outras. Isso é o ensinamento que tive ao lidar com este público”.

“A receptividade é o diferente daqui. Eles nos tratam muito bem, nos chamam pelo nome social, da forma que queremos, sem preconceito se somos homens ou mulheres” (Paula Rodrigues, cabeleireira)

Diversidade

A psicóloga e atriz Pérola Preta Ueldes Reis, de 33 anos, frequenta a unidade desde maio. Natural da Bahia, ela morava no Rio de Janeiro e já fazia o processo transexualizador pelo SUS. “Apesar de ser novidade aqui, acho que existe uma relação boca a boca que vai disseminando o serviço. Cada um de nós vai trazendo suas demandas e humanizando o atendimento. Essa população ainda é muito marginalizada”, afirma.

Já a cabeleireira Bruna Gomes Paulista, de 20 anos, foi atendida ontem pela segunda vez. A moradora do bairro Planalto, na região Norte, quer ir mais longe e conseguir a cirurgia de redesignação sexual, que também é ofertada pela rede. “O processo é longo (é preciso acompanhamento de dois anos para ter a cirurgia autorizada), mas vou seguir firme por este direito”, diz ela, que também elogia o atual modelo. “Eu me sinto respeitada como cidadã e como mulher aqui”.

“Acredito muito no SUS e acho fundamental que a população trans seja acolhida pelo sistema público com sua personalidade e direitos respeitados” (Andreia Resende, psicóloga)

Ambulatório trans SUS
 “Como a gente se sente respeitado, acaba se estabelecendo aqui”, diz Raul, ao falar sobre o ambulatório da capital

Credenciamento

O ambulatório da capital completa um ano de funcionamento no próximo dia 23 e a expectativa de quem circula pelos corredores da unidade é a de que o espaço, finalmente, seja credenciado pelo Ministério da Saúde. Para que isso aconteça, a unidade precisa, primeiro, estar funcionando. 

Após o processo, o Eduardo de Menezes passa a receber verbas da pasta e, assim, poderá disponibilizar os hormônios de forma gratuita aos usuários. Hoje, quem frequenta o local precisa comprar as substâncias ou tentar adquirir em postos e outros ambulatórios da rede pública. 

A cabeleireira Paula Rodrigues, de 38 anos, mora no bairro Heliópolis, na região Norte da cidade. Uma vez por mês, ela é atendida pelo endocrinologista do SUS, mas precisa gastar cerca de R$ 50 na compra dos hormônios. “Aqui tenho uma noção dos medicamentos certos e que darão melhores resultados. O que a gente mais procura é exatamente essa orientação. Mas não adianta, muitos dos hormônios ainda precisamos comprar”, conta.

Essa não é uma dificuldade para quem é atendido no ambulatório do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). Lá, o objetivo agora é para que a unidade seja autorizada a fazer a cirurgia de redesignação sexual. O espaço, que já atendeu a mais de 2 mil pessoas desde a inauguração, já conta com uma equipe capacidade.

“Fomos a primeira unidade criada no tipo no país, mas só conseguimos o credenciamento ambulatorial há dois anos. O que queremos é a permissão para se tonar um centro cirúrgico”, afirmou a coordenadora do serviço, Flávia Teixeira.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que existem sete hospitais no Brasil habilitados para o procedimento e que a autorização obedece a critérios técnicos.

“O acompanhamento hormonal é uma política pública que foi instituída há pouco tempo, e que deve ser mais disseminada, por ser um direito de todas nós” (Pérola Preta, atriz)

Demandas

Até hoje, nos dois ambulatórios mineiros não há nenhum usuário que tenha conseguido fazer a cirurgia, que só é autorizada após dois anos de acompanhamento do paciente no ambulatório. Enquanto isso, as pessoas utilizam o serviço para outros procedimentos.

É o caso de Michele Foster, de 44 anos, que desde 2004 frequenta o Eduardo de Menezes, antes mesmo de o local ser ambulatório. “Faço consulta com o ginecologista. Eles me respeitam. Desde que descobri que tinha o HIV, me ensinaram que era possível viver, que ainda tinha uma vida”.

Um dos primeiros a ser atendidos no local, o estudante de filosofia Raul Capistrano, de 37 anos, acredita que a forma como os usuários são tratados é o diferencial. “Como a gente se sente respeitado e acolhido da forma correta, acaba se estabelecendo aqui. Eu, por exemplo, faço consultas ginecológicas, do dermatologista e acompanhamentos da saúde”, afirma.

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