“Fragile”. O carimbo em italiano nas caixas especiais que trazem as peças da exposição “Barroco Itália Brasil – Prata e Ouro”, na nova sede da Casa Fiat de Cultura, na Praça da Liberdade, anuncia a importância do que se verá ali dentro. Uma das caixas é aberta. Uma imagem magnífica, digna de arrancar um “sinal da cruz” mais respeitoso de um fiel católico desperta olhares para fotos curiosas dos celulares dos amantes da arte. Feita em cerca de 280 quilos de prata está a “Immacolata Conceizione”, de 1628, que desde então, pela primeira vez, sai de casa: o Museo del Tesoro di San Gennaro, em Nápoles.

Ecco! Mais uma vez o Barroco atravessa o oceano para a América Latina. Nascido na Itália, o movimento artístico percorreu a Europa, passou por Portugal e chegou ao Brasil, a partir do século em que nasceram as igrejas que pontuam nossas cidades históricas dentro e fora de Minas Gerais. Início e desdobramentos estão na mostra, que reúne 40 esculturas de “lá” e de “cá”, para que o público alinhave a história a ser contada de 10 de junho a 7 de setembro, no antigo Palácio dos Despachos que, por meio da Casa Fiat de Cultura, a ser inaugurada no mesmo dia, passa a integrar o Circuito Cultural Praça da Liberdade.

“As peças são um recorte desse período, na região Sul da Itália, onde nasce o Barroco. A exposição mostra um retorno da prata que veio da América do Sul”, lembra a italiana Rossella Vodret, uma das curadoras ao lado do “patrício” Giorgio Leone e do presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Angelo Oswaldo.

Entre os exemplares selecionados para representar raridades mundiais do Barroco, 20 são moldados em prata, provenientes de importantes museus e coleções da Itália – do San Gennaro vieram 16. Outras 20 são obras policromadas de grandes artistas do Barroco mineiro e brasileiro – Aleijadinho entre eles – que traduzem a riqueza histórica e artística do período colonial.

Em ritmo de contagem regressiva

Exposições sem intervalos para um público maior. Esta é a expectativa do presidente da Casa Fiat de Cultura, José Eduardo de Lima Pereira, para o mais novo e amplo espaço do Circuito Cultural Praça da Liberdade. Assim que a mostra “Barroco Itália Brasil – Prata e Ouro” terminar, entra em cartaz uma mostra em homenagem à obra de Candido Portinari, com curadoria do estilista Ronaldo Fraga.

“Será um estudo, uma visão lúdica da obra de Portinari”, cita Pereira, salientando a conclusão do restauro do quadro “Civilização Mineira”, no ano passado. A obra foi feita pelo artista especialmente para o antigo Palácio dos Despachos. Foi instalada na entrada do prédio a ser reinaugurado na próxima semana, já com as adaptações para funcionar como um centro cultural.

Serão cinco pavimentos, café, livraria e a reserva técnica, esta que é uma espécie de “concentração” climatizada para as obras, antes de serem expostas nas galerias de 700 metros quadrados cada, nos pavimentos.

“Sem dúvida, teremos mais público (do que na antiga sede no bairro Belvedere). Aumentamos o número de educadores, que é o nosso ponto mais importante. Não sei quanto vai aumentar neste público”, diz Pereira. O diretor espera que “pelo menos 150 mil pessoas visitem “Barroco Itália Brasil – Prata e Ouro”. “Na exposição do Caravaggio, tivemos este público. Mas estamos preparados”, garante.

Nápoles em prata

O milenar uso da prata vem desde o Egito e a Grécia, ou em artefatos das civilizações pré-colombianas da América Latina. Porém, sua consagração, defendem os curadores da exposição, deu-se em Nápoles. Na cidade, o artista “prateiro” era responsável por transformar o molde em argila do escultor em modelo de gesso. Dali, a peça iria para a fundição e receberia acabamento, com técnicas de repuxe, burilamento e cinzelamento.

Mini-entrevista - Paolo Jorio

Qual foi a reação dos paroquianos de Nápoles no anúncio da saída dessas peças que simbolizam a devoção deles para uma exposição?

Uma grande emoção, um grande orgulho podermos levar isso para outros povos. Significa a história, a cultura e a fé de um povo. É um tesouro que pouca gente aqui conhece. Os napolitanos sabem que este é um tesouro.

O senhor presenciou tudo...

Sim. Quando os caminhões saíram do museu, várias pessoas na rua aplaudiram, orgulhosas de poderem contar a história da cidade. De Nápoles, se conta sempre a parte negativa (da máfia). Mas temos esta riqueza intacta, que representa a alma napolitana.

Muita gente sabia dessa viagem que as peças fariam?

Muitas pessoas esperavam essa viagem. Na rua em frente da igreja formou-se uma fila de carro, era muita gente no dia da saída. Cheguei a ter um pouco de medo da reação das pessoas. Mas vi o aplauso e entendi mais ainda o amor que os napolitanos têm por essa cultura.