Após o rompimento da barragem em Brumadinho, na Grande BH, ambientalistas, especialistas e representantes do poder público participaram de uma audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte para discutir a contaminação do rio Paraopeba, a saúde da população e o risco de desabastecimento nessa quinta-feira (28). 

O debate acendeu o alerta para a necessidade de fiscalização das mineradoras para evitar que outras tragédias comprometam o abastecimento de água da capital mineira. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, até o momento, mais de 320 quilômetros do rio estão contaminados por metais pesados da mina do Córrego Feijão.

Agora, a preocupação dos ambientalistas, além do rio Paraopeba, também se volta para os mananciais do distrito industrial de Bela Fama, em Nova Lima, na Grande BH, responsável pelo abastecimento de cerca de 70% da água consumida pelos belo-horizontinos e que está cercada por barragens de rejeitos de mineração.

“Precisamos pedir ao Estado o balanço hídrico de Bela Fama, fazer o levantamento dos licenciamentos e outorgas existentes. Caso ocorra algum rompimento na área, teremos sérios problemas de abastecimento em BH. Toda ação política realizada deveria ser baseada em análise de sustentabilidade”, explicou Grillo”, explicou o ex-superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Júlio César Dutra Grillo. 

O geólogo Paulo Rodrigues, que representa o Águas do Gandarela, o Movimento pelas Serras e Águas de Minas e o SOS Serra da Piedade também se mostrou preocupado Bela Fama, uma vez que, segundo ele, dois milhões e quatrocentas mil pessoas da região metropolitana dependem dele. 

“O Sistema Hídrico de Paraopeba só não entrou em colapso devido à captação pelos afluentes, o que não aconteceria no Rio das Velhas, caso haja algum problema com as barragens existentes em Bela Fama”, disse Rodrigues.

Ainda conforme o ambientalista não existe um banco de dados confiável sobre o controle de informações das barragens existentes em Minas Gerais.

“Os dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), da Agência Nacional de Águas e da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) não batem, cada órgão tem sua lista. É urgente uma conversa entre esses órgãos para a atualização e a consolidação de um banco de dados”, enfatiza Rodrigues.

Durante a audiência foi apresentada uma denúncia ao superintendente de meio ambiente da Copasa: moradores de Rio Acima e do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas informaram que nos últimos 10 dias, as águas do Velhas estão com uma turbidez acima do normal. Nelson Cunha Guimarães disse que a empresa não tem informação sobre esse fato, mas que vai solicitar uma vistoria local. 

Guimarães informou também que a Copasa vem cobrando ações da Vale para que a maior parte dos rejeitos derramados pela barragem seja retida na área já afetada, além da recuperação ambiental da área devastada.

Ele explicou ainda que a companhia executará o plano de fechamento de uma mina de extração de ouro abandonada, que está localizada a 7 km da captação de Bela Fama. “O projeto foi feito pelo governo, e a Copasa já está fazendo o licenciamento. O prazo para a execução das obras é de um ano”, concluiu Guimarães.

Para o militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Felipe Leonardo Soares Ribeiro, a sansão pelo governador Romeu Zema do Projeto de Lei 3676/16, que torna as regras de barragens mais rígidas, foi um avanço com relação à segurança, “mas é um absurdo que tenha sido feita depois de tantas mortes. No entanto, é importante garantir que a legislação seja cumprida para evitar novos crimes”, explicou Ribeiro.

Além disso, há os prejuízos que extrapolam a região, como a contaminação da água, das frutas e verduras, dos prejuízos trazidos à saúde e ao Turismo. “Não existe solução a curto prazo para a questão, serão necessárias décadas para a reconstrução ambiental e da vida das pessoas. Somos todos atingidos”, declarou.

*Com informações da Câmara Municipal de Belo Horizonte

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