Evitar carros “vazios”, otimizar o tempo de todo mundo e rachar a gasolina. Com a proposta de incentivar o compartilhamento de caronas, chegou ao Brasil, há apenas uma semana, o aplicativo BlaBlaCar. A tecnologia de origem francesa nada mais é do que uma ponte entre motoristas de carros e passageiros. Por enquanto, o valor pago pela viagem, uma contribuição para cobrir despesas com combustível e pedágios, é repassado exclusivamente ao dono do veículo.

A proposta do serviço, disponível para smartphones e também na web, não é abrir concorrência com os meios de transporte convencionais, sobretudo os ônibus, garante o diretor da BlaBlaCar na América Latina, Julien Lafouge. “No fundo, nosso competidor principal são os assentos vazios nos carros”, afirma.

Na prática, o app funciona da seguinte forma. O usuário se cadastra, fornece algumas informações pessoais, passa por um filtro e, a partir de então, pode buscar parceiros para dividir os gastos. A negociação é feita entre motorista e carona, sem intermédio do app, e o pagamento, na hora da viagem.

A empresa garante ter meios suficientes para moderar a participação, filtrar usuários que estejam fora dos padrões e garantir a segurança de motorista e carona. “Existem várias camadas para blindar o sistema de qualquer atuação contrária às normas”, explica o diretor da empresa no Brasil, Ricardo Leite.

Polêmica

Apesar de ser recente por aqui, a exemplo do aplicativo Uber – espécie de serviço de táxi mais sofisticado –, a novidade promete gerar polêmica. O diretor de Comunicação do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Belo Horizonte e Região (STTRBH), José Márcio Gomes Ferreira, vê no serviço uma ameaça.

“É extremamente preocupante do ponto de vista de geração de emprego. Se temos hoje uma linha ‘X’ que opera com cinco motoristas, e se a demanda por essa linha cair por causa do aplicativo, certamente teremos postos de trabalho extintos”, afirma.

 

O Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER) informou que a carona paga é uma modalidade de transporte clandestino, irregular e ilegal. De acordo com o órgão, o condutor está sujeito a multa e apreensão do veículo, previstas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Serciço legal

Na avaliação do advogado Luiz Felipe Silva Freire, presidente da Comissão de Informática e Direito Eletrônico da OAB Minas, no entanto, o serviço é totalmente legal. O que acontecer, afirma ele, é o motorista se tornar ilegal (não o aplicativo) se ele tentar utilizar o serviço como forma de ganhar dinheiro, de sobreviver. “Não há ilicitude nenhuma em oferecer caronas ocasionais e propor uma cobrança para dividir os custos”, detalha.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, não há nada previsto em lei sobre caronas compartilhadas.

Em seis dos 20 países onde o aplicativo pode ser utilizado, de 10% a 15% do valor cobrado pelo motorista são pagos pelo passageiro à plataforma digital; os criadores do serviço estudam implantar a cobrança no Brasil.

As viagens pelo app podem custar menos da metade do valor cobrado pelas empresas de ônibus; as empresas temem que o serviço acabe por interferir na operação
das viagens convencionais


Carros do blablacar têm espaço para carona 100% feminina

Para muita gente, a viagem num carro compartilhado pode levantar questões que envolvem segurança. Embora o aplicativo garanta a moderação dos usuários e afirme ter como “fiscalizar” o serviço oferecido, há quem não se sinta seguro viajando com um estranho ao lado, sobretudo se for do sexo oposto.

A boa notícia para as mulheres é que o BlaBlaCar criou o “Só Para Elas”. O botão permite que a oferta da carona seja configurada e apareça na seção “detalhes da viagem” somente para as meninas. A ferramenta vem sendo usada principalmente nas primeiras viagens.


Brasil é o 20º país a receber o serviço, lançado na europa em 2006

A França foi o primeiro país a contar com o serviço, nove anos atrás. Por lá, a plataforma, que não estabelece um número máximo de destinos permitidos por localidade, já contabiliza 250 mil combinações de roteiros. Moradores de países como Rússia, Índia, Turquia e México também conseguem utilizar o sistema, disponível tanto para Android quanto para IOS e também pela internet, em um site exclusivo. Até agora, já são mais de 20 milhões de usuários no mundo todo.

Segundo o gerente da empresa no Brasil, Ricardo Leite, a média de ocupação dos carros comuns, na Europa, é de 1,7 pessoas. Por outro lado, usuários do BlaBlaCar costuma ter pelo menos 2,8 ocupantes por veículo. “Há uma demanda reprimida por viagem. Com o BlaBlaCar, pessoas que antes deixavam de viajar agora têm a oportunidade de ir de carona”, avalia. O download do aplicativo é gratuito.

Preço cobrado pelo motorista pode ser no máximo 50% superior ao estabelecido pelo sistema

O objetivo é criar uma regulação do serviço, que conta com uma espécie de “termômetro” de preços. Toda vez que o usuário aumenta o valor da carona, a cor do preço é alterada. Verde para o mais baixo, laranja mais caro, e vermelho no limite da tabela.

Aplicativo estimula motorista e caroneiro a rachar despesas da viagem