Idealizados para ajudar na prevenção e no combate à violência, sites e aplicativos que prometem mapear a criminalidade têm conquistado os usuários. Embora desqualificados pela Polícia Militar (PM), que questiona a credibilidade dos dados publicados, especialistas veem as ferramentas com outros olhos: fornecem informações sobre segurança pública que, dificilmente, chegariam ao cidadão.

“Onde fui Roubado”, “Liga” e “Smaps” integram a lista dos softwares que assumiram essa função. Com a ajuda dos usuários que reportam as mais variadas ocorrências – incluindo detalhes sobre horário, endereços e itens levados –, os programas criam estatísticas sobre violência de determinado lugar.

Apesar do sucesso entre o público, a PM faz várias ressalvas à essas tecnologias. “As informações ali postadas são pouco confiáveis. Se alguém der uma notícia errada e aquilo repercutir negativamente, de quem vou cobrar a responsabilidade?”, questiona o major Gilmar Luciano dos Santos, chefe da sala de imprensa da corporação.

Os prejuízos não param por aí, de acordo com o oficial. Após documentar uma ocorrência em sites ou aplicativos, uma pessoa pode se sentir desobrigada de registrar o Boletim de Ocorrência (BO). Como consequência, o sistema de georreferenciamento da PM – que também mapeia as zonas quentes de criminalidade com base nos dados que chegam às delegacias – ficam desatualizados.

“Depois cobram ação proativa da PM em uma rua onde está ocorrendo, frequentemente, certo tipo de crime. No entanto, a polícia sequer tomou conhecimento disso porque as pessoas deixaram de registrar o BO”.

Outro Lado

Criador do “Onde fui Roubado” com outros dois colegas, o estudante de ciência da computação Fernando Sandes, de 24 anos, acredita que o êxito do programa é uma prova de que os Estados, responsáveis pelo serviço de segurança pública, precisam rever os modelos operacionais adotados.

“Não temos intenção alguma de substituir a PM. Mas com a ajuda da população, temos conseguido entender como se configura a criminalidade em alguns lugares”. Até o momento, já foram registradas denúncias em 806 cidades brasileiras.

Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Robson Sávio também vê mais ganhos do que prejuízos no uso dos programas. “Ter acesso a dados sobre segurança é direito de qualquer cidadão. Mesmo que distorcidos, pelo menos a pessoa pode ter o retrato da violência de um local”. Para ele, se houvesse mais transparência na divulgação das informações por parte dos órgãos públicos, nenhuma ferramenta que pretende traçar um mapa da violência faria sucesso.

Além disso, argumenta Sávio, até mesmo os relatórios produzidos pelo Estado não são 100% confiáveis. “Alguns tipos de ocorrência estão subnotificados, principalmente os que tratam de crime contra o patrimônio e pequenos furtos, indicativo que mudanças são necessárias”.