Toda mulher já viveu ou presenciou um assédio sexual durante o Carnaval. Cantadas constrangedoras, beijo forçado e “mão boba” são algumas situações recorrentes durante o período festivo. Para lutar contra esse problema, integrantes de blocos de rua se uniram para desenvolver uma campanha de conscientização, com um vídeo e 14 peças gráficas que serão trabalhadas nas redes sociais.

Tomando emprestado o verso “Tira a mão: é hora de dar um basta”, da marchinha “A Coxinha da Madrasta” – vencedora do primeiro concurso Mestre Jonas, em 2012 –, a campanha apresenta mulheres de diferentes perfis se posicionando contra os abusos.

“Muitos blocos já faziam campanhas contra o assédio, mas sentimos que seria importante ter uma ação unificada, para conseguir atingir um maior número de pessoas”, conta Renata Chamilet, produtora do bloco Chama o Síndico.

A linguagem festiva dada ao material foi escolhida para que o diálogo com os foliões fosse mais efetivo. “A nossa preocupação foi de fazer uma campanha que tivesse a cara do Carnaval, com mulheres que vão estar nas ruas. Não queríamos colocar um tom dramático”, completa Renata.

Um bloco que se posiciona contra o assédio há anos é o Tchanzinho Zona Norte, que vai desfilar pelas ruas do bairro Dona Clara, na Pampulha, pela quinta vez nesta sexta. 

De acordo com a integrante Laila Heringer, o bloco sempre sentiu a necessidade de conversar com os foliões sobre o assunto por conta do conteúdo sexualizado das músicas cantadas no desfile: ritmos de axé da década de 1990. “Nos dois primeiros anos, trabalhamos o assunto por meio de postagens na internet. Mas, nos anos seguintes, vimos que era importante ir além. Passamos a fazer um corpo a corpo com os comerciantes dos bares da região, explicando que eles podem nos avisar sempre que virem algo. A ordem é parar o som toda a vez que soubermos que uma mulher foi assediada”, conta Laila. 

O bloco feminista Bruta Flor tem essa preocupação na essência. Integrante da bateria, Luísa Nascimento, de 17 anos, conta que essa conscientização tem acontecido com boa parte das garotas da geração dela. “Estamos em forte contato com o processo de luta e empoderamento. Mas entendemos que é um processo mais lento na conscientização de todos os homens”, diz.

Ocorrência

Assédio sexual é crime e a vítima pode fazer um boletim de ocorrência contra o agressor. O número de casos, no entanto, costuma ser pequeno, de acordo com a assessora de comunicação da Polícia Militar na capital, capitão Molise Zimmermann. “As vítimas se sentem envergonhadas, com um sentimento de que as coisas não vão se resolver. Mas a polícia tem capacidade e disciplina para lidar com problemas como esse”, afirma. 

Música

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) apostou na música para conscientizar a população sobre os direitos da infância e da juventude. Lançada na semana passada, a marchinha “Aqui Não, BH é da Proteção!” é uma ação de enfrentamento ao trabalho infantil e à violência sexual contra crianças e adolescentes durante o Carnaval. 

Criada pelos músicos Eros Siqueira e Bruno Malagut, a marchinha será tocada durante os quatro dias de festa, em ação apoiada por blocos carnavalescos, escolas de samba, associações de bairros, além de bares e restaurantes, hotéis e agências de viagens.

“Marchinho”

Por falar em marchinha, a cantora, compositora e jornalista Brisa Marques criou uma música para colaborar com a campanha contra o assédio sexual. Em “Marchinho”, ela aborda a importância de se dizer “não” aos homens que enxergam as mulheres como objetos sexuais. A música já está disponível no canal da artista no YouTube.