Apesar de dois casos de zika terem sido confirmados em Minas – uma gestante em Ubá, na Zona da Mata, e um bebê com microcefalia em Curvelo, na região Central –, a real abrangência do vírus permanece uma incógnita no Estado. A concentração dos esforços em diagnosticar a doença no principal grupo de risco – mulheres grávidas e recém nascidos com perímetro cefálico inferior a 33 centímetros – dificulta ainda mais a identificação de outros casos e torna praticamente impossível seguir o “rastro” do vírus.

Sem saber exatamente por onde ele circula, a recomendação de órgãos e profissionais da Saúde é para que as mulheres adiem os planos de gravidez no momento, já que a relação do vírus com a má-formação foi comprovada no Brasil.

“Temos procurado orientar o seguinte: até termos um posicionamento do poder público sobre o real impacto do zika na gravidez e o grau de lesão cerebral que ele provoca, que a mulher evite engravidar, se possível”, diz o obstetra membro do conselho da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Frederico Peret.

Segundo ele, a confirmação dos casos em dois municípios mineiros não significa, necessariamente, que o vírus esteja restrito a essas localidades. “São questões que precisam de ser analisadas do ponto de vista epidemiológico. Se Curvelo confirmar mais uns sete ou oito casos, aí, sim, saberemos que o problema está lá. Mas, como o vírus é migratório, não temos como ter certeza por enquanto”.

Procedimento padrão

Embora as primeiras confirmações da presença do zika em Minas tenham ocorrido justamente entre a população que mais preocupa as autoridades, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) garante que não há negligência nos exames laboratoriais nem na busca por outros pacientes.

Segundo a pasta, tanto o Protocolo de Vigilância e Resposta à Ocorrência de Microcefalia Relacionada à Infecção pelo Vírus Zika (direcionado ao grupo de risco) quanto o Protocolo de Implantação de Unidades Sentinelas para Zika Vírus, ambos do governo federal, têm sido cumpridos.

“A SES-MG segue as orientações do Ministério da Saúde, que preconiza uma busca ativa de casos relacionados ao zika vírus tanto em mulheres em idade fértil, gestantes e puérperas, recém-nascidos com microcefalia e na população em geral”, garante em nota.

Sinais mascarados

O presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estêvão Urbano, no entanto, confirma que alguns casos têm passado despercebidos. “Geralmente, nem estão procurando muito (o zika) nas não-gestantes ou na população do sexo masculino. O exame de identificação da doença não é disponibilizado facilmente e nessas pessoas, as consequências da doença são muito discretas. O foco tem sido onde o problema é maior. Mas isso não significa que podemos baixar a guarda e deixar de investigar outros casos”.

De acordo com Urbano, normalmente, a infecção pelo vírus não é notada nem pelo próprio paciente, já que os sintomas são mais sutis do que os da dengue e da febre chikungunya, também transmitidas pelo Aedes aegypti.

“É bem possível que a população de não-gestantes já tenha se infectado, tido uma cura rápida, espontânea, e nem percebido os sinais da doença. Na maioria das vezes, é assim”, conclui o médico.