Em Governador Valadares, no Leste do Estado, o transporte clandestino desafia a fiscalização e expõe a riscos de acidentes centenas de pessoas, todos os dias. Sem constrangimento ou medo de retaliações, agenciadores disputam passageiros nos entornos, calçadas e até dentro da estação rodoviária.

Todos os meses, cerca de 100 mil pessoas embarcam e desembarcam na rodoviária de Governador Valadares. Outras 40 mil usam vans e táxis clandestinos para nas viagens, a maioria para Belo Horizonte e cidades do entorno como Frei Inocêncio, Itambacuri e Mantena.

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Alheios aos riscos na estrada e à falta de seguro em caso de acidente, esses passageiros são atraídos pelo conforto de ser deixado na porta de casa. E também pelo preço da passagem. Para Belo Horizonte, por exemplo, o bilhete no terminal custa R$ 103. Com os clandestinos, paga-se cerca de R$ 80.

Para Teófilo Otoni, no entanto, o custo é R$ 33,50 no terminal e R$ 35 com os ilegais. “Os preços são atraentes. E motorista é motorista, seja de carro clandestino ou de linhas regulares”, avalia o camelô José João Silva, de 42 anos, que costuma viajar duas vezes por mês para comprar mercadorias.

Consequências

Mas essa economia traz prejuízos diários para as empresas de ônibus e a administração do terminal. “É um problema crônico, um câncer. Sobra ousadia e falta fiscalização”, reclama Eugen Machado Júnior, diretor da Ibituruna Concessionária de Terminais Rodoviários (Ibicon) em Valadares.

Ele calcula a atuação de pelo menos cem vans e carros particulares no transporte clandestino que opera na cidade. Mas, além deles, há os táxis emplacados em outras cidades que chegam com passageiros e só retornam depois de conseguir a lotação máxima. Outros fazem linhas diárias para os aeroportos da capital, ilegalmente.

Em uma das “rodoviárias clandestinas” de Valadares (na rua Belo Horizonte, esquina com a Caio Martins), a poucos metros da prefeitura, os clientes esperam sentados em um banco na calçada a hora de embarcar. Nas proximidades da estação ferroviária, eles ficam em lanchonetes e na praça.

Há casos em que o passageiro é disputado a bala. Um dos conflitos mais graves foi registrado em junho de 2010, quando quatro pessoas foram baleadas nas imediações da ferrovia durante uma briga entre dois agenciadores de passageiros. 

De acordo com a ocorrência registrada pela Polícia Militar, os tiros de pistola 380 foram efetuados por um homem de 30 anos, atingido outro da mesma idade. O pai da vítima também foi baleado ao tentar salvar o filho e uma bala perdida acertou de raspão o pé de um ciclista que passava pelo local.

Rotas intermunicipais

Questionada sobre o transporte irregular de passageiros na cidade, a Prefeitura de Governador Valadares informou que a responsabilidade pela fiscalização dos veículos que fazem rotas intermunicipais é do DER-MG.

A prefeitura ressalta que fiscaliza o transporte escolar e os táxis regularmente, em busca de irregulares e prestadores não legalizados, mas não informou o número de autuações e apreensões feitas neste ano em Valadares.

“A prefeitura de Governador Valadares tem planejado e executado, portanto, através da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, diversas ações que visam coibir as atividades de clandestinos”, diz o Executivo municipal, por meio de nota.

Em nota, o DER-MG informou que em 2015 foram realizadas 168 fiscalizações ao transporte clandestino de passageiros em Governador Valadares e região, com abordagem de 2.736 veículos: 201 foram retidos e autuados; o órgão não soube informar o número de automóveis que atuam de forma irregular e quais as principais rotas.