O avanço do coronavírus em Minas – que ontem registrou recorde de mortes em 24 horas, com 35 óbitos – traz mais um desafio a gestores de saúde. Não bastasse ter que lidar com uma doença nova, sobre a qual pouco se sabe, e com a ameaça de colapso na rede de assistência, devido ao esgotamento de vagas nas UTIs, os profissionais se veem às voltas, agora, com o risco de desabastecimento de remédios. Em alguns hospitais, a saída já colocada em prática é fazer substituições de medicamentos.

A Santa Casa de Belo Horizonte, referência no tratamento da Covid-19 na capital, vive essa situação. O diretor Clínico do hospital, Guilherme Riccio, admitiu ontem a falta de alguns medicamentos, como bloqueadores neuromusculares, anestésicos e sedativos, essenciais para pacientes em leitos de UTI. Com isso, a direção do hospital é obrigada a utilizar outros remédios que possuem os mesmos efeitos, mas há casos em que eles são mais caros. 
“Estamos substituindo um remédio por outro. Usamos aquilo que temos mais e guardamos o que temos menos. Isso é estratégia e não leva riscos ao paciente. Para relaxamento muscular, por exemplo, existem os medicamentos mais antigos, mas que possuem efeito mais fugaz, o que te obriga a receitá-los com mais frequência”, cita. 

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) admitiu um “contingenciamento” e o remanejamento do estoque de remédios. Em alguns casos, informou a SES, há a substituição terapêutica por outros similares, prevista nos protocolos clínicos. “Apesar da dificuldade encontrada em algumas entregas pontuais, até o momento, não houve desabastecimento desses medicamentos nessas unidades”, afirma a nota da SES.

“Temos um recado para a população: O distanciamento tem que ser aumentado. Essa é a contribuição de cada cidadão para evitar risco de esgotamento do sistema”
Estevão Urbano - Infectologista

“Administrar” o estoque de medicamentos é só uma das dores de cabeça trazidas pelo coronavírus. O próprio governador Romeu Zema revelou ontem, em entrevista ao site UOL, estar preocupado com um colapso no sistema de saúde estadual: “Estamos aqui acompanhando. O nosso grande temor é que falte atendimento médico. Estamos tomando todas as medidas para que não haja”. 

Outro agravante da situação em Minas é a lotação dos leitos para pacientes com Covid-19. Conforme o Hoje em Dia divulgou na terça-feira (16), metade das regiões do Estado registra ocupação de vagas de UTI acima de 90%.

Na capital, epicentro da pandemia em Minas, esse índice continuava na “zona vermelha” ontem. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), dos 966 leitos de UTI do município, 82% estão ocupados. O percentual é o mesmo para os 266 espaços destinados a pacientes com Covid-19. 

Na Santa Casa de BH, por exemplo, segundo o diretor Clínico, a taxa de ocupação dos 162 leitos de UTI destinados a doenças respiratórias (incluindo Covid-19) atingiu 98% nesta semana. Riccio afirmou que, diante do aumento da demanda, mais 100 leitos de UTI poderão ser abertos nos próximos dias para esses pacientes no hospital. 

Ele destacou também que o hospital só está fazendo cirurgias consideradas inadiáveis, como neurológicas, cardiovasculares, oncológicas e de urgência, especialmente em crianças. “Não estamos marcando o que podemos fazer depois, sem pressa”.

Palavra do especialista:

Belo Horizonte permitiu a reabertura de mais atividades do comércio no dia 25 de maio, estabelecendo a flexibilização em quatro fases. Neste momento, a capital está na segunda etapa, mas, com os casos de Covid-19 aumentando na cidade- onde foram registrados 3.548 dos 23.347casos da doença confirmados no Estado, um lockdown, fechamento total do município, não está descartado.

De acordo com o infectologista Estevão Urbano, integrante do Comitê de Enfrentamento à Epidemia de Covid-19 da Prefeitura de BH, o cenário ainda é de incertezas e requer muitos cuidados pelos órgãos de saúde e pela população. 

“Estamos no pior momento e analisando os cenários. Precisamos entender melhor este aumento de casos, esta curva. O lockdown é uma opção, mas nós temos várias opções de fechamento. Nada está descartado. Podemos voltar uma fase da flexibilização em BH, por exemplo. Estamos trabalhando com o pico em julho, mas existem variáveis que podem alterar esta previsão”.

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