Eles sabem que precisam se vacinar, mas deixam de ir aos postos de saúde. Para piorar, o comportamento inadequado ainda pode contar com a falta de apoio de alguns médicos. É o que afirmam especialistas da área de imunização, preocupados com as baixas taxas de proteção entre homens e mulheres de 20 a 59 anos. O assunto foi amplamente debatido na última semana, durante um congresso realizado em São Paulo, no Instituto Butantan. 

Em Minas, por exemplo, a cobertura vacinal contra a febre amarela nessa faixa etária está em 84%, conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES). A meta é de 95%. Desde 2016, exatos 1.002 mineiros ficaram doentes. Desses, 340 morreram.

A falta de confiança na eficácia das substâncias e o medo de reações adversas são algumas das razões alegadas pelos mais velhos para não se protegerem. Para infectologistas, a situação também é motivada pela falta de preocupação com doenças consideradas erradicadas, como a rubéola.
“Pode ser até o próprio médico, que muitas vezes desencoraja o paciente a se vacinar por falta de necessidade, já que o vírus não está mais circulando. Mas foi exatamente por essas pessoas tomarem a vacina que as doenças desapareceram”, observa Rosana Richtmann, coordenadora do Comitê de Infectopediatria da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).

Outro dificultador é que muitos adultos só procuram os consultórios quando estão doentes. Assim, para a professora de medicina da UFMG Estela Vieira, alguns profissionais falham no quesito imunização. “Vacina não cura, previne. Então, o médico está desacostumado a tratar de vacinação com essa faixa etária”, pondera a especialista em saúde pública.

Outro importante desafio é combater as fake news. Coordenador da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência, André Bienarth acredita que muitas das informações falsas sobre as vacinas nascem da confusão sobre o que é o vírus inativo (morto). “O público associa os efeitos colaterais a teorias conspiratórias. Cabe aos médicos explicar o contrário”.

Desafio

Diante deste cenário, as baixas taxas de imunização reforçam a necessidade de ações específicas para esse contingente de pessoas. É o que defendeu a Sbim durante o evento em São Paulo.

Autora dos livros Imunizações e Manual Prático de Imunizações, ambos considerados referências no tema no país, a infectologista Mônica Levi diz que a situação é desafiadora. 

“Podemos criticar o Programa Nacional de Imunizações (PNI) do SUS em vários aspectos, mas não em seu sucesso no âmbito geral. Nas duas últimas décadas, o Brasil sempre esteve com taxas acima da média mundial, e estamos decrescendo desde o ano passado”.

Conforme o Hoje em Dia mostrou ao longo deste ano, Minas teve dificuldade, também, em alcançar a meta de 95% na imunização contra o sarampo. No Estado, 91 casos suspeitos são investigados.

“Algumas vacinas podem ter o vírus inativo. Para outras, é necessário o vírus vivo, que fará a pessoa produzir os anticorpos que vão protegê-la contra a doença” (Alexander Precioso, coordenador da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacologia do Instituto Butantan)

Estratégia unificada

Das 19 imunizações que fazem parte do Calendário de Vacinação oficial no Brasil, sete podem ser aplicadas entre os que têm de 20 a 59 anos. Porém, é justamente na fase adulta que as pessoas deixam a saúde em segundo plano.

Coordenadora de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Eva Lídia Medeiros Arcoverde afirma ser esse um obstáculo não apenas de Minas Gerais, mas de todo o país. “Como razões destacam-se a crença de que vacina é coisa de criança, a pouca informação sobre o calendário e baixa quantidade de prescrição médica”, enumera.

Por aqui, as situações mais preocupantes são a da hepatite B e da segunda dose da tríplice viral, que previne contra sarampo, caxumba e rubéola e deve ser tomada até os 29 anos. Conforme o Ministério da Saúde, em Minas a cobertura vacinal acumulada dos dois imunizantes, de 1994 até 2018, não passa de 40% na fase adulta.

Cultura

A pasta federal informou que o calendário para os mais velhos é uma novidade em termos de políticas públicas. Por isso, é natural que uma cultura de imunização demande tempo para ser incorporada pela população. Conforme o órgão, campanhas são feitas em todo o país para a atualização das cadernetas e os profissionais de saúde são orientados a indicar as doses.

O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, admite faltar mais dedicação dos médicos que acolhem a população adulta quando diz respeito à vacinação. 

Porém, defende que medidas para alcançar esse público sejam realizadas em conjunto. “A cobrança da caderneta atualizada, por exemplo, pode ser feita pelas equipes de saúde, em cada visita a domicílio”, frisou. Procurada, a SES não informou sobre as iniciativas para promover a imunização entre pessoas de 20 a 59 anos.

Das vacinas recomendadas para a fase adulta, apenas a febre amarela tem cobertura superior a 80% em Minas

Vacina