O território negro demarcado pelo fogo na superfície da Serra do Rola-Moça, na Grande BH, faz o local – que é zona de transição entre Cerrado e Mata Atlântica – mais parecer um grande deserto de cinzas. E não apenas pela ausência do verde, mas também pelo clima seco, já que hoje completam-se 100 dias sem chuva na capital mineira.

A última vez que o belo-horizontino precisou abrir o guarda-chuva foi em 13 de junho, segundo a Defesa Civil e as medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na estação meteorológica localizada no bairro de Santo Agostinho, região Centro-Sul da cidade. Desde então, nenhuma gota a mais caiu do céu para umidificar o ar ou tornar mais vivo o verde das reservas que cercam a metrópole. O resultado foi a disparada dos incêndios florestais, que já consumiram mais de cinco mil hectares de mata na região em 543 ocorrências.

Rola-Moça Queimadas
 Cinzas tomaram conta de área

Destruição 

Apenas no Parque do Rola-Moça, 75 focos de queimadas nas áreas interna e externa já foram contabilizados esse ano pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad). Os incêndios destruíram pelo menos 62 hectares até o momento, o que equivale a uma área de mais de 60 campos de futebol reunidos. 

A destruição não para por aí. Em agosto, segundo dados da pasta, 216 focos de incêndio foram registrados no interior e no entorno de unidades de conservação em todo o Estado. O número é 42% maior do que a média dos últimos cinco anos. 

Prejuízos

Os impactos no ecossistema das áreas destruídas podem ser irreparáveis. Quem afirma é o biólogo e gerente técnico do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, Marcus Vinícius de Freitas. Ele explica que, durante as queimadas, a flora local é a primeira a ser completamente destruída. A devastação compromete a alimentação dos animais herbívoros e, por consequência, a sobrevivência de espécies carnívoras. 

“As temperaturas chegam a 382°C e destroem componentes, como o nitrogênio, que são base para fixação de nutrientes pelas plantas. Há um desequilíbrio completo da cadeia alimentar”, afirma.

Nascentes

Os efeitos do fogo também impactam as seis nascentes que existem dentro do Rola-Moça. Com a chegada do período chuvoso e sem a existência da vegetação, há um processo de erosão que causa assoreamento dos cursos d’água, explica Marcus Freitas. “Se esses incêndios se tornam recorrentes, é pior ainda. Isso torna a capacidade de resiliência da vegetação mais demorada”, frisa o biólogo.

“A recuperação da vegetação pode levar até 40 anos, com o risco de haver até extinção de espécies locais” (Marcus Vinícius de Freitas, biólogo)

Incêndios podem extinguir espécies da Serra do Rola-Moça

Enquanto centenas de bombeiros trabalham para controlar as chamas dos incêndios que há todo momento ressurgem na Serra do Rola-Moça, inúmeras espécies de animais lutam para se salvar e também as crias em meio à fumaça sufocante que parece não ter fim. A área de 3,9 mil hectares abriga espécies ameaçadas de extinção como a onça parda, a jaguatirica, lobo-guará, o gato-do-mato, o macuco e o veado-campeiro. Além destes, uma infinidade de aves de rapina, como o gavião-carcará, morrem tentando escapar das queimadas.

Rola-Moça queimadas
Vegetação diversificada também foi atingida

Outro tesouro guardado pelo parque é a vegetação diversificada. Além da canela-de-ema, espécie que se tornou símbolo do Rola-Moça e foi completamente devastada pelas chamas, há orquídeas, bromélias, candeias, jacarandás, cedros, jequitibás e arnica.“Temos uma fisionomia do Cerrado chamada campo ferruginoso, com espécies que só ocorrem aqui. Há cactus, orquídeas e bromélias que são extremamente comprometidas”, explica Marcus Vinícius Freitas, biólogo e gerente da unidade de conservação. 

Esforços

Freitas explica que a principal ferramenta utilizada para evitar que novos incêndios ocorram é um plano integrado que envolve todos os órgãos parceiros. No entanto, a ajuda da sociedade ainda é fator essencial para que as ocorrências diminuam.

“Hoje, já constatamos que 99,1% dos incêndios florestais são oriundos de ação humana, seja ela criminosa ou não” (Tenente Warley, comandante do pelotão de Combate a Incêndios Florestais)

A proximidade do parque com as áreas urbanas faz com que a maioria dos casos seja decorrente da ação humana. “É a queima de lixo, renovação de pastagem ou até mesmo usuários de drogas”, explica o biólogo. 

Cenário

No período crítico de estiagem, principalmente entre os meses de junho e outubro, a condição de relevo montanhoso e os ventos fortes, acabam contribuindo para uma propagação rápida e maior do fogo. “Temos trabalhado para que as pessoas tenham um sentimento de pertencimento. O parque é uma extensão da casa da gente”, conclui Freitas.