O investimento de R$ 180 milhões em uma nova estrutura de atendimento oncológico em Belo Horizonte poderá garantir um alívio imediato a milhares de pacientes que buscam tratamento contra o câncer em todo o Estado. A falta de leitos para essa especialidade na capital é estimada em mais de 4 mil.
 
Enquanto isso, projetos de expansão e construção de hospitais que poderiam abrir vagas na capital estão parados por causa da burocracia. É o caso da expansão dos hospitais Vera Cruz e Felício Rocho, no Barro Preto, e do Hospital Oncomed BH, que deverá criar 220 leitos onde funcionava a antiga estrutura do Instituto Hilton Rocha, desativado há cinco anos, no bairro Mangabeiras, aos pés da Serra do Curral, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.
 
De acordo com os parâmetros do Ministério da Saúde, o ideal seria a existência de três leitos para cada mil habitantes. Nessa perspectiva, Belo Horizonte teria um superávit de 2,6 mil leitos, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. No entanto, o número leva em conta leitos para todas as especialidades, sem diferenciação para pacientes com câncer, e desconsidera, ainda, a população que vem de outras regiões para se tratar na capital, principalmente da RMBH, que possui mais de 5,7 milhões de habitantes.
 
Interior
 
Das 14.252 consultas de oncologia realizadas neste ano, nos oito hospitais credenciados do SUS (Sistema Único de Saúde), em Belo Horizonte, metade foi de atendimento a pacientes do interior do Estado, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde.
 
Em Minas Gerais, existem hoje 921 leitos dedicados a oncologia, nas redes pública e privada, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. Quase um terço está na capital e na região metropolitana. A solução para as famílias é se dividir ou se mudar para BH, contando com a ajuda de amigos ou locais de apoio.
 
Famílias buscam ajuda
 
É o caso de João Vitor, de 8 anos, e Lucas, de 6. As crianças enfrentam uma longa batalha contra a leucemia em Belo Horizonte, há cerca de um ano, depois de não conseguirem tratamento adequado em suas cidades: Nova Serrana, no Centro-Oeste, e Coluna, Vale do Rio Doce.
 
“Ainda bem que existe uma casa de apoio que nos recebe e nos acolhe durante todo o tratamento do câncer, que não é nada fácil. Se não fosse isso, não sei o que seria de nós”. A afirmação é de Maria Aparecida de Jesus, de 34 anos, mãe do João Vitor.
 
A Casa de Acolhida Padre Eustáquio (Cape), no bairro São Luiz, na Pampulha, onde vivem Lucas, João Vitor e suas mães, é mantida pela Associação Dona Lucinha e tem capacidade para atender a até 60 crianças e 60 acompanhantes que chegam, em sua maioria, das regiões do Vale do Aço e da Zona da Mata.
 
O local, que funciona há um ano, presta assistência médica, nutricional, psicológica e educacional a famílias carentes, de crianças e adolescentes com câncer que moram fora da capital.
“Os hospitais encaminham os pacientes à rede de acolhimento porque é importante ficar perto de um hospital. Quando um deles precisa de um leito, normalmente consegue, mas, se todos precisassem no mesmo dia, por exemplo, sabemos que eles não conseguiriam ser internados”, explica Simone Souza, coordenadora da Cape.
 
“O médico chegou a dar 24 horas de vida para o meu filho. Isso porque ele recebeu tratamento errado na minha cidade antes de chegar a BH” diz Vanilza Almeida, de 25 anos, mãe de Lucas.
 
Burocracia emperra investimentos na capital
 
A Associação de Hospitais de Minas Gerais (AHMG) afirma que o déficit existe e que as estruturas, além de superlotadas, estão sucateadas. “De modo geral, os hospitais estão apertados e não há investimento. No sistema público nem se fala, o problema é que a rede particular também está sem condições de investir. Os hospitais privados pequenos estão fechando”, disse Reginaldo Teófanes de Araújo, presidente da AHMG.
 
A proposta do Hospital Oncomed é criar um centro de referência em câncer, com 220 leitos destinados à oncologia e também à oftalmologia e à cardiologia. “O projeto já passou por vários órgãos da prefeitura, como BHTrans e SLU, e foi aprovado, inclusive, no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. A proposta feita é de reforma e ampliação, mas não altera a estrutura do prédio, só levará benefícios para o local”, garantiu Amândio Soares Fernandes Júnior, vice presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia e diretor da Oncomed.
 
Decisão
 
O Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam) vota, no dia 27 de janeiro, o licenciamento para o início das obras. A análise da licença deveria ter acontecido na semana passada, mas a sessão acabou suspensa porque quatro conselheiros do Comam pediram vistas ao projeto. O processo faz parte do trâmite de implantação, que começou há cerca de três anos.
 
Para o diretor do Instituto Mineiro de Desenvolvimento Ambiental, Carlos Eduardo Orsini, a expansão horizontal concederá ao prédio um acabamento mais adequado à paisagem da Serra do Curral. “O Comam considerou o projeto como uma melhoria do ponto de vista ambiental, uma vez que as quase ruínas do Hospital Hilton Rocha impactam negativamente a Serra. Esperamos que o projeto esteja definitivamente aprovado, com relação ao licenciamento ambiental, no dia 27 de janeiro”. O presidente da Associação dos Hospitais concorda: “não entendemos porque o projeto ainda está parado. Poucas instituições querem e podem investir, então tem que abrir logo”.
 
De acordo com a Oncomed, o projeto ainda prevê a construção de um estacionamento subterrâneo com 40 vagas para os pacientes, evitando transtornos no trânsito da região, uma das preocupações dos moradores do bairro Mangabeiras.
 
Se a implantação for autorizada em janeiro de 2015, as obras terão início imediato e o hospital deverá ficar pronto em 1 ano e meio. O investimento total será de R$ 180 milhões.
 
Uso e ocupação
 
A utilização das dependências do Hospital Oftalmológico Hilton Rocha teve o aval da Câmara dos Vereadores em abril de 2013, quando foi aprovada a Lei nº 288. Foram flexibilizados o uso e a ocupação do solo em áreas onde já existiam hospitais, incluindo Zonas de Proteção Ambiental.
 
 
A gravidade da situação do tratamento do câncer ém Minas nos leva a reproduzir a coluna de Vittorio Medioli.

Como se conquista o castigo
Por Vittorio Medioli
 
Chegou semana passada do interior, AF.

Estado lastimável e comovente. Há mais de dez dias não conseguia deitar, afetado por metástases ósseas. Os analgésicos “faixa preta” já resultam inúteis para aliviar a dor, noites insones, sem alimentação, pescoço reclinado no ombro, cadeira de rodas, funções prejudicadas. Origem, um tumor na próstata que fugiu de controle. Isso acontece muito com homens que se vangloriam: “Eu nunca fui ao médico”. Esses do “nunca” são comuns, temem passar por consultas e, quando chegam ao quebrar o “nunca”, já é tarde.

Os familiares de AF, depois de três dias de espera penosa, encontraram vaga de SUS no Mário Penna. Instituição de impagável serviço social e humanitário aqui em Belo Horizonte.

Neste fim de ano, as minhas empresas doaram ao Mário Penna, decorrentes de incentivo fiscal sobre IRPJ, R$ 234 mil. Considero isso um regalo que concedi a minha consciência. Ninguém impede que você recolha a parte cabível do IRPJ ou do IRPF a entidades como o Mário Penna. Não custa nada ser feliz.

O Mário Penna supre o atendimento oncológico de muita população carente. Em Minas Gerais, o déficit de atendimento especializado é imperdoável, e deveria pesar na consciência de políticos e administradores. Esses mensalões e petróleos têm seu pior aspecto e trazem consigo o castigo na medida em que sugam recursos públicos que aliviariam, se bem empregados, o sofrimento de milhões de abandonados.

O paciente AF encontrou nas aplicações intravenosas de morfina o descanso para as dores, os curativos aliviaram as feridas que se abriram nas costas. Sofreu lavagem intestinal, estancaram uma hemorragia e o soro aliviou a anemia em que se encontrava.

Outros sofredores estão na fila aguardando um leito. Em Minas, faltam 12 mil; na região metropolitana de Belo Horizonte, mais de 3.000 leitos hospitalares. Um cúmulo de sofrimento incalculável, para pacientes e familiares.

Decidi visitar AF. Chegando ao Mário Penna, não me contive, chorei, meu coração desmanchou. Pessoas humildes, pálidas, com olheiras negras, familiares estonteados. Olhares velados de tristeza. Crucificados a um destino muitas vezes sem saída. Lembrei os momentos mais terríveis da minha vida. Vários meses com um fígado imprestável, aguardando um órgão de alguém que não mais precisava dele. Tomei morfina, mas depois de momentos de alívio, entrava em profunda confusão. Nos pesadelos, ansiava suicidar-me, lançando-me de carro numa floresta. Pedia a Nossa Senhora que me concedesse ficar livre da vida. Mas depois de dez dias sem noção de tempo, voltei a me entender. Renasci. A ilusão material desapareceu, apegos e vaidade se diluíram. A vida adquiriu valor em si mesma, não por aquilo que se tem, mas por aquilo que somos.

Ser humano e solidário sem pensar em recompensa, já que a própria vida é o maior presente, a água é um milagre e o ar que entra nos pulmões, um presente inestimável.

Em O TEMPO de ontem encontrei a notícia que um conselheiro do Comam entrou com um pedido de vista, uma tergiversação hostil para alongar os mais de cinco anos de obstruções para reabertura do Hospital Hilton Rocha, destinado ao atendimento oncológico.

Seria mais uma solução. Usou uma prerrogativa tanto legal, como imoral, no tribunal ambiental do Comam, parquet de mil descalabros, como a verticalização do Belvedere, a conspiração contra a Pampulha e os mil votos a favor da especulação que transformou Belo Horizonte de Cidade Jardim em pombal de concreto.

Com a consciência nesse diapasão, atrasar a reabertura de um hospital oncológico faz sentido. Alongar ainda mais os cinco anos de espera do funcionamento de 220 leitos do antigo Hilton Rocha, encostado no paredão da serra do Curral, entra agora no currículo de Sergio Myssior. Ele é o proponente do pedido de vista que pretende implodir a reabertura do hospital. Para quê?

Na legislação ambiental mineira, tem um mundo de besteiras, moralmente injustificáveis em vista do interesse social e humano, e nelas também se encontra a possibilidade de exercer mal o poder.

Entende-se que pecado é deixar morrer quem poderia sobreviver com mais qualidade de vida.

O assunto já amplamente discutido passou pelo corredor polonês do “ambientalão mineiro” durante cinco anos. Sem mais argumentos impeditivos, vem agora a “legalidade imoral”. Mais de 107 mil pacientes que deixaram de ser atendidos durante o atraso formam o saldo de quem pagará contas na Justiça Divina.

Precisariam ler “Sabedoria Antiga”, de Annie Besant, para entender que se colocaram carmicamente no pior lugar que poderiam ter escolhido. Na pele, na alma, à sua volta, na sua família, atrai assim o sofrimento que continua acontecendo.