O forte temporal registrado nos últimos dias colocou a capital em estado de emergência e em alerta máximo diante da previsão de novas pancadas que podem deixar pontos da cidade novamente debaixo d’água. Até amanhã, o 5º Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia espera que chova o equivalente ao registrado entre a noite de segunda-feira e ontem. O volume no período foi tão grande que praticamente alcançou o esperado para todo o mês. Uma adolescente de 13 anos morreu.

Para garantir o repasse de verbas federais para reparar os danos estruturais provocados pela enchente de segunda-feira, o prefeito Marcio Lacerda publica hoje, no Diário Oficial do Município (DOM), decreto de situação de emergência na cidade. A medida, no entanto, não irá solucionar os problemas enfrentados pelo município.

O próprio Executivo admite que um mapeamento indicou vários pontos com risco iminente de inundações. Porém, em muitos desses locais não há previsão de obras imediatas.

É o caso da avenida Vilarinho, uma das mais atingidas pelo temporal de segunda-feira. As inundações na via atingiram carros, ônibus e lojas.

Conforme estudo realizado pela Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), são fundamentais ao menos quatro intervenções na bacia do córrego Vilarinho. No entanto, somente uma, a implantação da bacia de detenção do córrego Lareira, está em fase de licitação. As demais, incluindo a ampliação do sistema de macrodrenagem, não têm previsão para sair do papel. Enquanto isso, a prefeitura “realiza periodicamente a limpeza das bacias de detenção e bocas de lobos”.

Engenheiro de recursos hídricos e professor da UFMG, Márcio Baptista avalia que o problema da Vilarinho é o mesmo encontrado nas avenidas Tereza Cristina, Francisco Sá, Cristiano Machado e Prudente de Moraes: insuficiência na canalização em função da urbanização. “Como as estruturas de drenagem foram feitas há muito tempo, estão obsoletas”.

Chuvas em BH
FAXINA PESADA – Funcionários da SLU trabalharam durante toda a manhã de ontem para limpar o rastro de lixo e sujeira deixado pelas inundações da noite de segunda-feira

De acordo com o especialista, a PBH tem que colocar em funcionamento as obras indicadas na Carta de Inundações para evitar situações como a de segunda-feira. “A situação é agravada pelo lixo que chega na rede de drenagem. Durante o alagamento na Vilarinho foi possível ver resíduos sólidos flutuando. Tudo isso vai obstruindo o sistema de drenagem”, identificou ele, alertando sobre o perigo de jogar lixo nas vias.

Óbito

Os transtornos da chuva em BH não se limitam aos prejuízos financeiros. Uma jovem de 13 anos morreu após ser arrastada pela enxurrada. A tragédia aconteceu no bairro Felicidade, região Norte, quando a vítima – a primeira em BH desde o início do período chuvoso – seguia para a escola. A irmã da garota também se afogou, foi resgatada e está em estado grave no Hospital Risoleta Neves.

Dia de limpeza e de lamentar os prejuízos com mais uma enchente na Vilarinho

Desde as primeiras horas de ontem, uma força-tarefa da prefeitura recolhia o lixo deixado pelas enchentes. Somente da avenida Vilarinho, a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) removeu mais de 20 toneladas de resíduos, o equivalente a três caminhões basculantes lotados e 20 vezes a quantidade retirada do local diariamente. Na região de Venda Nova, 699 bocas de lobo ao longo das avenidas Vilarinho, Doutor Álvaro Camargos, Desembargador Felippe Immesi, Elias Antônio Issa e Padre Pedro Pinto são vistoriadas e limpas ao menos uma vez por semana.

O dia também foi de faxina intensa para lojistas ao longo da Vilarinho. Alguns relataram prejuízos superiores a R$ 20 mil por causa de três inundações em 15 dias. “É um tormento, todo ano a história se repete. Vou fazer o que? Fechar as portas?”, esbravejou a empresária Kátia Carvalho, de 50 anos, que há oito tem uma loja de acessórios às margens da via.

Paulo Karmaluk, de 67, disse que a água subiu 43 centímetros no comércio que há 25 anos mantém na Vilarinho. Ele já perdeu as contas de quantas vezes foi vítima de enchentes. “Estou descrente, triste e não tenho mais lágrimas”.

O temor da aposentada Maria do Rosário Vieira, de 67 anos, é ainda maior. A idosa, que divide a casa com 17 parentes, tem medo do imóvel desmoronar. A residência dela fica no terceiro pavimento, mas quando chove, a água chega a dois metros de altura. Por causa das enchentes, o primeiro piso foi abandonado. A Defesa Civil esteve no local e por enquanto descartou risco de queda. “Mas tenho medo da estrutura ficar abalada com o tempo e tudo cair”, disse.