BH registra quatro roubos a ônibus por dia; situação na Via Expressa é críticaAlém de caro e ainda pecar no quesito qualidade, o transporte público de Belo Horizonte se mostra, a cada dia que passa, mais inseguro. No ano passado, foram registrados mais de 1.500 assaltos durante as viagens, média de quatro ao dia. O índice é 50% superior ao de 2014 (cerca de mil crimes).

Com a bilhetagem eletrônica consolidada e o baixo volume de dinheiro em posse dos cobradores, o alvo dos bandidos são bolsas, carteiras e celulares.

Na Via Expressa, um dos principais corredores de trânsito da cidade, as ocorrências têm local e hora para acontecer: pela manhã e à noite, sempre no trecho de 3 km entre os bairros Coração Eucarístico e Camargos, na região Noroeste.

“Nunca mais peguei nenhum ônibus que passa pela Via Expressa. Agora, pego apenas os que vão pela Amazonas ou o metrô. Em último caso, prefiro pagar um táxi”. A afirmação é de um analista de sistemas de 39 anos, assaltado no coletivo da linha 2581 (Eldorado/Belo Horizonte) em julho do ano passado.

Segundo a vítima, que prefere não ser identificada, dois bandidos entraram no ônibus fingindo ser passageiros. Eles pagaram a passagem e sentaram-se no fundo do veículo, que seguia para Contagem, na região metropolitana, por volta das 19h30.

Pouco depois do Coração Eucarístico, a dupla anunciou o assalto e começou a recolher os pertences e dinheiro dos passageiros. O local é estratégico para os bandidos, dizem as vítimas, por ser ermo e não ter retenções no tráfego. Os ladrões costumam descer sempre na altura do bairro Camargos, ao lado de uma mata.

“Eu estava mais ou menos no meio do ônibus, com fones de ouvido, escutando música e cochilando. Acordei com um dos ladrões me cutucando e apontando uma arma para mim”, lembra o analista, que teve um prejuízo de cerca de R$ 1.300, considerando o celular, dinheiro e os custos para pedir novos documentos.

Recorrente

De acordo com usuários de linhas que operam nesse mesmo trecho, assaltos a ônibus são comuns por ali. O episódio mais recente foi registrado na semana passada, quando dois adolescentes tentaram roubar os ocupantes de um ônibus da linha 2760 (Granjas Vista Alegre via Linda Vista/Belo Horizonte), também no bairro Camargos.

Conforme a Polícia Militar, a ação só não deu certo porque as pessoas perceberam que a arma apontada por um dos menores era de brinquedo. Um deles foi apreendido e o outro conseguiu fugir.

Em dezembro, outra ocorrência semelhante: também em dupla, bandidos fizeram um arrastão em um coletivo e roubaram objetos de aproximadamente 20 passageiros.

Para quem trafega pela Via Expressa diariamente, o medo tornou-se companhia constante. É o caso de um motorista de ônibus que pediu anonimato. No ano passado, ele presenciou um assalto à linha em que trabalha e, desde então, vive apreensivo. “A gente fica um pouco cismado, mas tem que trabalhar. Estamos nas mãos de Deus”.

Sem resposta

Apesar da gravidade da situação, a Polícia Militar (PM) não se posicionou sobre o assunto nem revelou se estuda estratégias para coibir a ação dos bandidos na Via Expressa, particularmente, onde ela parece acontecer sempre de maneira semelhante.

Procurada pela primeira vez na última quarta-feira, a corporação informou, por meio da assessoria de imprensa, ter encaminhado a demanda do Hoje em Dia para o Comando de Policiamento da Capital (CPC). Já a assessoria do CPC disse que repassou o pedido de informações e posicionamento aos batalhões responsáveis pelo trecho onde os assaltos tornaram-se frequentes.

No 34º Batalhão, que atua no bairro Coração Eucarístico, a reportagem não conseguiu contato com nenhum porta-voz. No 5º Batalhão, que abrange o bairro Camargos, a orientação foi procurar o setor de estatísticas da PM.

Nesse setor, o Hoje em Dia foi informado de que o levantamento de dados não seria possível “em cima da hora” e que a legislação garante um prazo de 20 dias para uma resposta.

Na sexta-feira, já com os números de crimes e mãos – fornecidos pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) –, a reportagem voltou a contactar a Polícia Militar. Novamente as demandas não foram respondidas.

Desconfiança

Temendo represálias, o representante de uma das empresas de ônibus que opera na Via Expressa pediu para que os nomes não fossem revelados, mas confirmou que a onda de assaltos é frequente. “Internamente, estamos fazendo nosso trabalho para oferecer segurança a nossos clientes. Protocolamos todos os assaltos, com imagens das câmeras de segurança, nos batalhões responsáveis. Há casos em que a PM tem trabalhado”, diz.

Viações

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte informou, em nota, que não tem dados de roubos e que “mantém diálogo constante com a Polícia Militar, no sentido de melhorar cada vez mais a segurança dos usuários”.