Belo Horizonte caminha de forma acelerada para ser a capital nacional dos radares. Até o fim do ano, a cidade contará com 382 equipamentos. Em relação a 2014, o número representa um salto de 180% na fiscalização eletrônica. Proporcionalmente, a ampliação do sistema deixa para trás, e com folga, São Paulo, município com a maior frota do país.

Com mais de 8 milhões de veículos, a metrópole paulistana terá em dezembro 1.010 aparelhos. Na ponta do lápis, um radar para cada grupo de 7.960 carros. Em BH, a proporção cai para menos da metade: um por 4.368 automóveis. Os dados integram levantamento feito nos departamentos municipais de trânsito das quatro capitais do Sudeste, a pedido do Hoje em Dia.

Além de colocar a metrópole mineira em evidência, o avanço da fiscalização eletrônica na tentativa de coibir avanços de semáforos, velocidade excessiva ou invasão de faixa exclusiva divide opiniões. De um lado, os que consideram a medida como preventiva e que basta não cometer abusos para estar de acordo com a lei. Do outro, o temor de uma preocupação excessiva com aumento da arrecadação em detrimento à educação no trânsito.

Lado oposto

Com mais de 30 anos dedicados ao serviço de táxi, o motorista Mauro César Borges, de 50 anos, acredita que os gastos com as licitações e compra dos aparelhos são desnecessários.

“Trabalho desde a década de 80. Nunca houve tanto radar como agora. Esse dinheiro deveria ser investido em obras de melhoria nas ruas, que estão cheias de buracos e, claro, na educação dos motoristas. Não é punindo que se resolve a imprudência. É educando”, disse.

O consultor em engenharia de tráfego Frederico Rodrigues vê de forma positiva a chegada de novos equipamentos em Belo Horizonte. Categórico, o especialista diz que “quanto mais, melhor”. Segundo ele, as infrações ocorrem em praticamente todas as vias e a todo momento. Por isso, afirma, é importante coibir os abusos dos condutores. “Fico satisfeito de ver que estamos à frente de grandes cidades brasileiras”.

Em debate

O assunto será debatido na próxima segunda-feira na Câmara Municipal. O vereador Joel Moreira Filho (PTC), que convocou uma audiência pública, questiona a ampliação do sistema.

“Não podemos assistir à implantação dessa indústria da multa em nossa cidade, que tem finalidade unicamente arrecadatória. Por que Belo Horizonte precisa de tantos radares em avenidas, cujo tráfego é congestionado na maior parte do dia?”, diz o vereador.

Critério para instalação do equipamento é do órgão de trânsito

Resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) exigem que os equipamentos de fiscalização eletrônica não podem ficar escondidos. As placas indicando a velocidade máxima permitida na via também deve estar visível. Porém, não há determinação com relação aos pontos ou trechos a serem fiscalizados. Os critérios são feitos de acordo com estudos e análises dos órgãos de trânsito locais.

Atuando há 18 anos na área, o mestre em sociologia, escritor e especialista em educação e segurança no trânsito Eduardo Biavati classifica a instalação dos equipamentos como fundamental. Porém, ressalta que uma série de critérios deve ser levada em conta antes da efetiva implantação. “É preciso levantar o número de acidentes naquele ponto, o fluxo de veículos e pedestres, a velocidade média, dentre outros”.

Fatores esses que explicam, segundo Biavati, o fato de o Rio de Janeiro ter número maior de radares, proporcionalmente, em relação a BH. Na capital fluminense, há um aparelho para cada grupo de 3.160 automóveis. “No Rio, existem muitas vias rápidas, como as linhas Vermelha e Amarela, as avenidas Nossa Senhora de Copacabana e das Américas. Além disso, é uma cidade com grande fluxo de pessoas nas ruas. Lá, existem muitos radares de avanço de semáforo, por exemplo”.

Retorno

A reportagem solicitou à BHTrans uma fonte para falar sobre o assunto. Porém, a assessoria do órgão se posicionou apenas por meio de nota. A empresa apresentou, como justificativa para a implantação de novos radares, uma forte redução nos casos de acidentes entre 2000 e 2013. No entanto, não mostrou os dados ano a ano, de forma a permitir uma análise mais precisa da evolução das taxas de atropelamentos e de mortalidade, além do número de mortos.

Quanto à taxa de atropelamentos, o índice passou de 61,02 casos por grupo de 10 mil veículos, em 2000, para 14,36 há dois anos: queda de 78%. Não é possível afirmar se esse índice está estável nos últimos cinco anos, por exemplo, o que demonstraria a necessidade de tomar outros caminhos para deixar o trânsito mais seguro.

Direto ao ponto

A favor

“Nós, da medicina de tráfego, sempre estaremos ao lado da segurança e da saúde dos condutores e pedestres. Vemos a fiscalização eletrônica não como um mecanismo de arrecadação, mas como importante aliada no cumprimento das regras de circulação. Entendemos que o número de acidentes de atropelamentos será reduzido, assim como as próprias multas. Para conseguirmos também maior fluidez no trânsito, devemos ter mais fiscais, principalmente para evitar o fechamento de cruzamentos nos horários de pico. Não podemos esquecer que é primordial mais investimento em ações de educação”

Fábio Nascimento

Médico e diretor da Associação Mineira de Medicina de Tráfego (Ammetra)

Contra

“Radar, por si só, não resolve o problema. Não podemos afirmar que essa é uma indústria da multa. Se tem muita multa, é porque tem infração. Porém, é obvio que o excesso de aparelhos será muito mais prejudicial ao cidadão e, na outra ponta, lucrativo para as empresas que os operam e para o município. O problema é que essa expansão deixa um forte indicativo de que o município está mais preocupado em arrecadar do que educar. O melhor seria, sem dúvida, colocar mais agentes nas vias públicas. A fiscalização deve ser presencial, com profissionais competentes e treinados. A presença física inibe os excessos e educa os motoristas. Infelizmente, as ações educativas são, na maioria das vezes, isoladas”

Carlos Cateb

Advogado especialista em transportes

9 licitações para implantação de radares foram feitas neste ano

No último dia 21, oito novos locais de fiscalização de avanço de semáforo começaram a operar em Belo Horizonte. A mudança mais recente contempla as avenidas Pedro II (4), Antônio Carlos (2) e Cristiano Machado (2)

BH supera SP e caminha para ser a capital nacional dos radares