Em Belo Horizonte, a tradicional expressão de espanto 'Nossa Senhora' perdeu 11 letras e tornou-se apenas 'nu'. Aqui, o gerúndio para o ato de comer é 'comeno'. E se alguém quiser saber sobre transporte público para ir à região mais charmosa da capital, você vai ouvir: sas sies sions pas nasavas? BH faz 122 anos nesta quinta-feira (12) e o Hoje em Dia homenageia um dos dialetos-charme do Brasil: o belo-horizontês. Diz aí: você o conhece? Como está sua fluência?

Vídeo: savassianos respondem: falamos o belo-horizontês?

Antes de tudo, é importante afirmar que o 'jeitin' de falar do belo-horizontino é indissociavelmente mineirês, já que a formação populacional da capital ocorreu, sobretudo, com a migração de povos do interior de Minas para BH. 

Estudos publicados na década de 70 pelo pesquisador de Linguística Mário Roberto Lobuglio Zágari, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mostraram que o 'falar mineiro', propriamente dito, é encontrado, predominantemente, na capital e nas cidades do seu entorno, enquanto no restante do Estado estão as fortes presenças das influências paulista (Triângulo Mineiro e Sul) e baiana, no Norte de Minas.

Ao longo de mais de uma centena de anos, esse mineirês da capital foi sendo remodelado e, atualmente, seu maior símbolo está na boca do nativo de BH e sempre impressiona quem não é daqui. Você, provavelmente, já o usou. 

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'Nossa Senhora'

'Minha Nossa Senhora'. 'Nossa Senhora'. 'Nossinhora'. 'Nossasinhó'. 'Nó'. 'Nu'. Essa caminhada de redução, empenhada nos últimos 122 anos, pode ser apontada, na avaliação da coordenadora do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Soelis Teixeira do Prado Mendes, como a palavra-símbolo da língua portuguesa falada em Belo Horizonte. 

"O 'nu' é um traço do belo-horizontino contemporâneo, que modificou a expressão maior, usada pelos mais velhos. A língua é muito dinâmica. Até mesmo dentro de BH, se você comparar a fala de Venda Nova com a da região Leste, você encontrará traços característicos de cada um", explicou Soelis, que é belo-horizontina e fala com conhecimento de causa. 

E que língua é essa? Para a especialista, a redução de palavras é a principal característica do belo-horizontês. "Pesquisas mostraram que o mineiro gasta mais tempo ao pronunciar a vogal tônica de uma palavra. Para compensar (esse gasto), ele apaga a vogal postônica, ou seja, aquela que se encontra depois da sílaba forte", explica. Exemplos? Temos:

Abóbora -> abóbra
Árvore -> árvre
Córrego -> córgo
Fósforo -> fósfo

Outro exemplo é o apagamento do gerúndio, que faz 'andando' virar 'andano' e 'falando' mudar para 'falano'. "A vogal fica anasalada e o D é corrompido, some", disse Soelis. Há, ainda, outros apagamentos, como a flexão em número do substantivo ('Os menino') e da preposição ('Vou no bar', quando o 'correto' seria 'ao bar').

Segundo a professora, que tem estudos sobre a oralidade no século XVIII em Vila Rica, Mariana e Sabará, a redução de palavras é uma forte característica do português falado em Belo Horizonte, mas não é exclusiva daqui. No entanto, "é a característica que o senso coletivo, o nacional, vê e associa ao mineiro", completa. Quem não lembra, por exemplo, da personagem da atriz mineira Gorete Milagres, a Filó?

Bem-vindo a BH

A capital mineira já ganhou até um divertido Dicionário Popular da Língua Belo-horizontina. Com tiragem de 5 mil exemplares, o livreto - uma iniciativa da BH Airport, concessionária que administra o Aeroporto Internacional de BH - foi distribuído entre outubro de 2017 e dezembro do ano passado aos passageiros que aportavam em Confins, na Grande BH.

E o projeto foi encabeçado por um olhar estrangeiro. O carioca Nicolau Maranini, gestor de Comunicação, Marketing e Ouvidoria da empresa, morador da capital há pouco mais de um ano, é quem conta. "BH tem, praticamente, um idioma próprio para determinadas expressões, que não são entendidas fora daqui. É difícil explicar pro paulista o 'garrado', que serve para muitas coisas", contou.

Segundo ele, o livreto - que também ganhou versões voltadas para termos belo-horizontinos do futebol e Carnaval - deixou saudades. "Até hoje recebemos pedidos para o dicionário. A língua é muito viva. Ela permite a criação de tratativas e isso reflete toda a beleza de uma cultura", disse. A BH Airport não descarta criar novas edições do conteúdo.

Belo-horizontês virou romance

'Sas sies sions pas nasavas? Sas sines sions encontro o meu amor?'. A bela e descontraída canção foi escrita e lançada em 2013 pelo belo-horizontino Affonsinho Heliodoro: foi o jeito que o violonista, cantor e ator, que morava no Rio já há duas décadas, encontrou para matar saudades da sua cidade-natal. Affonsinho nos contou essa história. Veja no vídeo, gravado especialmente para o Hoje em Dia.

A canção, aliás, inspirou uma residência na casa A Autêntica (Rua Alagoas, 1172 - Savassi), na região Centro-Sul da capital, sempre às quartas-feiras deste ano. O projeto, que recebeu convidados como Flávio Venturini, Paulinho Pedra Azul, Sideral e Marina Machado, retornará no ano que vem. Excelente oportunidade para curtir um som belo-horizontês.

Ouça o áudio da pesquisadora Soelis Teixeira: