Um biólogo que trabalha no aquário da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte (FZB-BH) é investigado pela Polícia Federal por enviar para exterior, ilegalmente, ovos de peixes em extinção. Por causa da suspeita, a corporação deflagrou, na manhã desta terça-feira (1º), a operação "Killifish", para combater crimes de contrabando, peculato e crime contra o meio ambiente.

A Justiça Federal determinou o afastamento do servidor público pelo período mínimo de um ano. O contrabando, de acordo com a PF, era enviado para pesquisadores de peixes da família Rivulidae (Rivulídeos), popularmente conhecidas por Killifish ou “peixes anuais”, e também colecionadores dos seguintes países: Estados Unidos, Alemanha, Bulgária, Malásia, Hungria, Rússia, Equador, República Tcheca, China, Grã-Bretanha, Argentina e Escócia.

Para a ação, a Justiça expediu cinco mandados de busca e apreensão, que foram cumpridos, nesta manhã, em Belo Horizonte e Contagem, na Grande BH; em São Paulo e São Vicente, cidades paulistas, além de Duque de Caxias, que fica no Rio de Janeiro. Durante a operação, foram encontrados diversos aquários nas residências de alguns envolvidos, contendo centenas de peixes; além de ovos acondicionados para futura remessa. 

Ninguém foi preso, mas a PF lavrou dois Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs). A FZB-BH foi procurada pela reportagem do Hoje em Dia e informou, por meio de uma nota, que o servidor e tratador do Aquário da Bacia do Rio São Francisco já está afastado preventivamente de suas funções na instituição por no mínimo 12 meses. 

"A Fundação esclarece ainda que não é possível determinar neste momento a origem dos ovos de peixes alvos das apreensões da investigação e que está colaborando amplamente com o trabalho da Polícia Federal. A Fundação reafirma seu repúdio à biopirataria e seu sólido histórico de mobilização em campanhas contra o tráfico e o comércio ilegal de animais, os quais sempre irá combater", conclui o texto.

Killifish

Conforme as investigações, a unidade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que fica no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, apreendeu, entre janeiro de 2018 a abril de 2019, 32 objetos postais, contendo ovos de peixes, sem a devida licença de exportação expedida pelo Ibama. No total, aproximadamente 1.300 ovos de peixes Killifish, de diferentes cores, foram apreendidos.

As postagens foram remetidas de agências situadas em Contagem e BH, e tinham como destino diversos países da Europa, América do Norte e Ásia. "No mesmo período e em fiscalizações semelhantes, o Ibama apreendeu mais cinco objetos postados em uma agência situada em São Vicente/SP e dois objetos postados em agências de Duque de Caxias/RJ, sem licença de exportação expedida pelo IBAMA", explicou a PF em nota.

Todas as postagens tinham o mesmo material: ovos de Killifish de diversas espécies. Apesar de as encomendas conterem dados de remetentes falsos, a fiscalização do Ibama conseguiu identificar os reais destinatários, que residem no exterior.

A PF informou que irá instaurar 12 inquéritos policiais distintos, separados por país de destino das postagens, para apurar a suposta prática do crime de contrabando e contra o meio ambiente em razão dessas remessas. "Para tais apurações, serão requeridas as oitivas dos investigados, por meio de pedidos de cooperação jurídica internacional", informou.

Além da Polícia Federal, participaram da operação o Ibama, a Guarda Civil Municipal de BH, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Fish and Wildlife Service (FWS), que é a polícia ambiental norte-americana. A pedido da polícia, a FWS realizou entrevistas, nos Estados Unidos, com quatro destinatários de ovos de peixes que residem naquele país.

Extinção

De acordo com o Ibama, mais de 120 espécies de peixes Killifish estão na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção. Para proteger estas espécies, o Ministério do Meio Ambiente implementou o Plano de Ação Nacional para a conservação dos peixes.

Os Killifish se formam durante as épocas chuvosas. Contudo, eles podem permanecer secos por longos períodos. Os ovos são resistentes e sobrevivem durante os meses da estação seca, mas eclodem logo após as primeiras chuvas. Após a eclosão, o desenvolvimento do peixe é extremamente rápido, às vezes chegando à maturidade sexual em apenas um mês.

*Com informações da Polícia Federal