Desfilar em ambientes pouco convencionais e sugerir aos foliões uma reflexão sobre o tema abordado é a proposta de alguns blocos de Carnaval que saem às ruas de Belo Horizonte este ano. Pelo menos três grupos fazem desta ideia o pano de fundo para a brincadeira momesca ganhar os morros e partilhar a diversidade cultural.

Há dois anos, o Pena de Pavão de Krishna (PPK) sobe os aglomerados da cidade com um mesmo objetivo: a integração cultural. “A proposta é descentralizar a festa de lugares comuns e turísticos, trocar experiências com outras comunidades e destacar o que esses locais têm de melhor”, explica um dos integrantes do PPK, Rafael Gonçalves.

A primeira experiência assim do grupo foi em 2014, quando o bloco ganhou as ruas estreitas do Aglomerado da Ventosa, na região Oeste da cidade. O motivo da escolha foi o entrosamento entre a comunidade e o grupo, que ensaiava no Quilombo do Abate, no bairro Salgado Filho.

A receptividade dos simpatizantes do bloco e da comunidade tornou-se um atrativo à parte. “As fantasias de cor azul, a percussão e a troca de experiências de foliões que nunca subiram o morro ajudam a quebrar o preconceito. A comunidade acaba inserida na festa que, na verdade, é feita para todos”, reforça Rafael.

INTEGRAÇÃO

No ano passado, um “mar de gente” tomou conta dos becos e vielas da Pedreira Prado Lopes, na região Nordeste de BH. “A influência dos terreiros de candomblé e o batuque, tudo isso é uma forma de integração cultural”, enumera o representante do PPK.

A proposta é a mesma seguida pelo Então, Brilha, que ganha os locais boêmios da capital. “A reflexão que trazemos é o fim do preconceito e a inclusão social”, destaca Rafael.

A nova modalidade de folia, uma festa mais democrática, caiu no gosto de quem pula o Carnaval. A funcionária pública Marcella Pacheco, de 38 anos, por exemplo, que nunca havia visitado um aglomerado, ficou encantada. “Foi emocionante ver todo mundo junto num mesmo espaço. As fantasias deixaram o cenário ainda mais lindo”, comenta, sobre a festa do ano passado.

Para o bloco Filhos de Tcha Tcha, que carrega a influência da umbanda, a heterogeneidade da festa proporciona trocas de experiências. “É a possibilidade de a festa ganhar os pequenos espaços, de enfatizar a simplicidade. Isso transforma o Carnaval num evento menos espetaculoso e midiático”, reforça Rafael Barros.