A boate Swingers Lounge, localizada na avenida Raja Gabaglia, no bairro Santa Lúcia, região Centro-Sul de Belo Horizonte, é alvo de uma investigação desencadeada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) por discriminação racial. Várias vítimas e testemunhas já foram ouvidas. O MPMG não informou de quantas vítimas se trata. Mas somente na página oficial do Facebook do estabelecimento, a reportagem do Hoje em Dia identificou pelo menos 12 usuários que relataram terem sido discriminados pela empresa.
 
O órgão deverá entrar, até o fim deste ano, com uma ação na Justiça contra a boate. “Estamos na fase final. A investigação tramita agora na Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos e Promoção da Igualdade Racial. O próximo passo será tomar medidas extrajudiciais e, caso não deem certo, vamos recorrer ao judiciário”, informou a coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos e Apoio Comunitário (CAO-DH) e promotora de Justiça Nivia Mônica da Silva. Umas das medidas extrajudiciais é o ajuste de conduta, isto é, uma tentativa de acordo.
 
As investigações iniciaram após o MPMG receber uma denúncia de uma jovem, no primeiro semestre deste ano. Assim como ela, a  engenheira de agrimensura, Camila Souza Diogo, de 30 anos, disse que  foi barrada na entrada da boate. 
 
Camila contou que, em março, chegou a ficar na fila por cerca de três horas para entrar na boate. Ela foi ao estabelecimento para comemorar o aniversário de uma prima e, apenas ela, em meio a grupo de amigos, não conseguiu entrar no local. “Todos os que me acompanhavam e que conseguiram entrar não eram negros. Quando questionei isso com o promoter, ele disse que somente os sócios entrariam. Mas nenhum dos meus amigos eram sócios. Perguntei qual era o critério e ele me disse que sabia de cabeça quem eram os sócios e que só entravam quem ele queria realmente. Estou muito chateada com isso”, desabafou.
 
A esteticista Carine Marques, de 27 anos, saiu, no dia 19 de julho, de Sete Lagoas, na região Central do Estado, com duas amigas com o intuito de se divertir em BH, mas a noite acabou sendo um tormento. “Fiquei horas na fila e quando finalmente cheguei na portaria, um dos promoters nos disse que somente quem era sócio poderia entrar porque a casa estava lotada. Mas cinco minutos depois disso, vi várias pessoas entrando. Perguntei a um menino se ele era sócio da boate e ele disse que não era”, contou.
 
Defesa
 
Sirley Melo, uma das responsáveis pelo setor jurídico da boate Swingers, confirmou que recebeu do Ministério Público um convite para poder se manifestar sobre as denúncias, mas negou que haja discriminação por parte da empresa. “Quem estiver falando que sofreu racismo é uma pessoa leviana porque não há provas”, afirmou.
 
Sirley argumentou que cerca de 90% dos funcionários do local são negros. “Se fossemos preconceituosos, não contrataríamos funcionários afrodescendentes. Queremos identificar se algum funcionário está fazendo isso. Por isso, somos os maiores interessados nessa investigação”.
 
Sobre os critérios para o acesso das pessoas ao local, Sirley disse que está condicionado ao número de associados. “Salvo engano, um terço da reserva da casa pertence aos associados. Então, se um aniversariante, por exemplo, faz uma reserva para 30 pessoas, não está garantido que todas vão conseguir entrar”.
 
Campanha
 
O MPMG deve lançar, até 10 de dezembro, uma campanha de conscientização em bares, restaurantes, boates e casas de festas de Belo Horizonte. A promotora de Justiça Nivia Mônica da Silva informou que o objetivo será evitar, nesses locais, a discriminação de pessoas seja por cor, raça, orientação sexual ou gênero. “Estamos em fase de negociação com parceiros. A ideia é que os funcionários dos estabelecimentos sejam orientados sobre essas práticas discriminatórias e afixar cartazes informando que aquele local não admite atos desse tipo”.
 
Denúncias
 
Somente de janeiro a setembro deste ano, 149 denúncias foram feitas em Minas Gerais por preconceito de raça ou de cor, conforme dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). No mesmo período de 2013, foram feitas 131 denúncias. Em todo o ano passado, o número chegou a 176. Em Belo Horizonte, até setembro deste ano, foram registradas 25 denúncias.