O que era uma boa oferta de trabalho tornou-se um drama para o DJ, Caio Saldanha, que está há quase dois meses embarcado em um navio de cruzeiro, ancorado entre as costas dos Estados Unidos e as Bahamas, devido à pandemia da Covid-19. Saldanha é DJ e tem tentado deixar o navio e retornar ao Brasil. Em busca de apoio, chegou a postar sua experiência, mas virou alvo de críticas em um grupo de tripulantes, em uma rede social.

Há vários dias, Saldanha e sua namorada, a apresentadora Jessica Furlan, estão tentando uma forma de desembarcar do Celebrity Infinity. Segundo o DJ, há resistência da companhia Royal Caribbean, devido ao custo da remoção da tripulação. Neste período, chegou a ficar 21 dias confinado com a namorada em sua cabine, devido à quarentena do Covid-19, após a morte de um tripulante filipino, que ele não sabe dizer se foi ou não pelo novo coronavírus. 

O casal embarcou no navio na primeira quinzena de março, logo após o governo dos Estados Unidos ter determinado a suspensão das viagens de cruzeiro. Após se acomodarem, foram informados do cancelamento do cruzeiro de 24 semanas, que tinha destino a Europa. Ainda foram avisados que ficariam à bordo por tempo indeterminado.

Confinamento

O DJ conta que no primeiro dia de confinamento as condições dentro da cabine eram precárias, com mofo, mobília deteriorada e forte mau cheiro. Apesar de o local ter escotilha, ela é selada, o que impede a melhor circulação do ar. No entanto, desde o dia 30, a tripulação pode circular pelo navio, desde que use máscara. Além disso, todos precisam checar a temperatura duas vezes ao dia. Atualmente, ele está numa cabine em melhores condições.

Apesar de poder transitar pelo navio, Saldanha conta que a falta de perspectivas tem sido bastante difícil. "Ficamos na internet pesquisando como sair daqui. A cada notícia a gente fica bem abalado. A última foi de um tripulante que se matou perto da Grécia em um navio da Royal Caribbean", conta. 

Para tentar se distrair, o casal assiste TV, joga videogame ou navega pela internet. No entanto, Saldanha diz que as quedas de conexão são frequentes. "Tenho videogame, Nintendo switch, que eu e Jessica jogamos. Escrevi um conto chamado 'Cavalos Marinhos' que pretendo publicar futuramente, em que faço analogia com o tratamento dado a cavalos e nossa vivência em quarentena", comenta.

Bullying

O jovem relatou tudo o que tem passado em sua conta em uma rede social. Ele dá detalhes sobre a angústia de não saber quando irá poder voltar para casa. A história chegou a ser publicada no portal G1 e, a partir daí, Caio e Jessica se tornaram alvos de críticas em um grupo exclusivo para profissionais que trabalham como tripulantes.

Nas postagens do grupo, os integrantes ironizam o casal, dizendo que estão reclamando sem motivo. Muitos relatam que já tiveram que se acomodar em cabines sujas, mas resolveram o problema limpando por conta própria. No entanto, alguns participantes da discussão afirmam que a embarcação é antiga e que há peças de mobília danificada. 

Outros participantes alegam que a limpeza das acomodações é de responsabilidade dos tripulantes. Palavrões e memes ofensivos não foram poupados. "É muito difícil ler toda essa raiva e interpretação desorientada. É o tipo de ataque que faz uma pessoa suicidar. Estou muito assustado com isso", comenta.

Diferentes versões

Segundo o boletim interno do navio, o Centro de Prevenção de Doenças (CDC) proibiu todos os voos para repatriação de tripulação até que um novo plano seja aprovado. "Ainda estamos aguardando a aprovação do nosso plano, mas esperamos receber uma resposta em breve. Algumas datas de viagem foram adiadas até recebermos as aprovações do CDC. Uma vez aprovado, o plano é desembarcar alguns de vocês nos portos dos Estados Unidos e levá-lo de volta para suas várias nações. Outras nações serão repatriadas por navio", explica o boletim publicado no dia 30 de abril e fornecido por Saldanha.

No entanto, o DJ questiona o documento da companhia com uma reportagem do jornal Miami Herald, publicada no mesmo dia (3). A matéria aponta que o CDC teria autorizado o desembarque dos tripulantes desde que assinassem um acordo com o órgão sanitário. Mas as companhias se recusaram a assinar, pois o transporte privado da tripulação seria muito caro. 

Procurado, o Itamaraty informa tem acompanhado de perto, junto a consulados e companhias de cruzeiro, a situação de passageiros e tripulantes brasileiros. A pasta ainda informa que o repatriamento é de responsabilidade da empresa. Já a assessoria que atende a Royal Caribbean no Brasil se prontificou a averiguar com o escritório de Miami se há alguma irregularidade em relação ao Celebrity Infinity. 

Em nota a companhia informa que: "Desde o início desta pandemia, já conseguimos enviar muitos membros da nossa tripulação de volta para suas casas em segurança, através de voos comerciais, voos fretados e travessias diretas para seus países de origem e muitos outros voltarão para casa nas próximas semanas. Estamos trabalhando com governos e autoridades de saúde em todo o mundo em nossos planos de repatriação e agradecemos muito a paciência, a compreensão e o espírito positivo de nossas equipes", fecha nota.