O fechamento de hospitais na região metropolitana afeta diretamente a prestação dos serviços de saúde na capital. Quando vai a uma unidade de emergência, o belo-horizontino tem sentido na pele as consequências da superlotação originada em outras cidades: ele espera mais por atendimento e, não raro, fica sem vaga.

Em dois meses, a capital registrou um aumento de 40% no volume de pacientes nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), são pessoas que “migraram” de cidades vizinhas. Os números absolutos não foram informados pelo órgão. A SMS atribui o fenômeno ao fechamento de hospitais na RMBH – três apenas neste ano, em Lagoa Santa, Vespasiano e Santa Luzia.

A rede municipal de urgência e emergência da capital é composta pelo Hospital Odilon Behrens e oito Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). “Percebemos uma crescente demanda nessas unidades e, na maioria dos casos, são de baixa urgência, que deveriam ser administradas pelos centros de saúde de cada município”, explica a gestora da gerência de urgência e emergência da SMS, Paula Martins.

No Odilon Behrens, o índice de internações de pacientes da Grande BH impressiona: metade dos doentes vem de fora, segundo a secretaria, principalmente de Ribeirão das Neves e das cidades que fecharam hospitais.

Com a retração no atendimento, moradores da RMBH se veem forçados a ir para Belo Horizonte. Trabalhador da construção civil, Júlio César, de 27 anos, precisou faltar ao serviço em Neves para buscar atendimento médico, nesta segunda-feira (1), para o filho Israel, de 2, que estava com fortes dores de cabeça e no estômago.

Às 9h, ele levou a criança ao Hospital São Judas Tadeu, mas, por volta das 14h30, ainda não tinha sido atendido. Decidiu então procurar socorro em BH, na UPA Concórdia (região Nordeste). “Isso é recorrente. Quase nunca somos atendimentos em Neves e temos de ir para a capital”, conta.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), Fábio Guerra, a pressão da superlotação nas unidades sobrecarrega o atendimento. “É um ciclo que acaba por pressionar o trabalho dos profissionais da saúde”. Dados do Conselho Federal de Medicina apontam que 130 hospitais fecharam as portas entre 2010 e 2014. Minas perdeu 2.132 leitos.

Segundo a Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais (Federassantas), a tabela de valores repassada pelo atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) garante o custeio de 60% das despesas, valor baixo, na avaliação dele, uma vez que 70% da população mineira é atendida pelas instituições filantrópicas

As secretarias de Saúde de Lagoa Santa, Ribeirão das Neves, Vespasiano e Santa Luzia informaram que os municípios realizam normalmente o atendimento de urgência e emergência.

Busca por hospitais de BH cresce 40%

BARÃO DE COCAIS – Hospital está na mira do Ministério Público; no detalhe, falhas estruturais e extintor de incêndio vencido (Foto: Flávio Tavares/Hoje em Dia)

MPE pede interdição do único hospital de Barão de Cocais

O Ministério Público Estadual (MPE) solicitou à Justiça a interdição do Hospital Municipal Waldemar das Dores, o único de Barão de Cocais, na região Central. O motivo é a precariedade das condições da unidade, verificadas em inspeções feitas pela Vigilância Sanitária de Minas.

De acordo com o MPE, os problemas encontrados nos setores administrativo e de atendimento médico revelam violação dos direitos “à vida e à saúde”.

As vistorias foram realizadas entre 2013 e 2014. A atual gestão do hospital garante que as medidas de readequação estão sendo tomadas e que não será preciso uma medida tão extrema, uma vez que a unidade atende pacientes de cidades vizinhas como Catas Altas, Itabira, João Monlevade e Santa Bárbara.

A reportagem do Hoje em Dia esteve no local nesta segunda-feira (1) e constatou alguns problemas. Faltam médicos, e o número de leitos de internação é insuficiente. “Pediatra não tem. É preciso marcar no PSF (Programa de Saúde da Família) com 15 dias de antecedência e passar pelo clínico geral, que faz o encaminhamento”, reclamou Janice Cristina de Alcântara Moreira, mãe de duas crianças. Ela chegou ao hospital às 14h e aguardava a pré-consulta. “Tem 15 pessoas na minha frente”.

Volume

No hospital, são feitos, em média, 120 atendimentos diários, mas, nas segundas-feiras, esse número chega a 160. Conforme a coordenadora Tânia Gonçalves Corrêa, a instituição recebeu um equipamento de raio x digital e aparelho de mamografia, que serão instalados na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), em fase final de construção.

Outros aparelhos, segundo Tânia, estão sendo licitados. O setor de pediatria também recebeu macas, incubadora, berçário aquecido e aparelho de fototerapia, doados pela mineradora Vale.

Surpresa com a possibilidade de interdição do hospital pela Justiça, a secretária municipal de Saúde, Maria Tereza Hosken, disse que a instituição vem se adequando às exigências feitas, com a capacitação dos profissionais, inclusive o pessoal da lavanderia, para atender aos requisitos da Vigilância Sanitária.

De acordo com ela, faltam algumas pendências para que o alvará sanitário seja liberado, até julho, para todas as áreas do hospital. Maria Tereza afirma que, em abril, foi dada a licença para o laboratório de análises clínicas. “Problemas nas demais estruturas estão sendo solucionados”.

O MPE apontou outras irregularidades: falta de estetoscópio e termômetro, paredes com infiltração; ocorrência de destinações diferentes para salas e consultórios e carrinhos de resíduos e de rouparia
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(*) Colaboraram Renato Fonseca e Ricardo Rodrigues