Pistas desniveladas, inexistência de rampas de acesso e armadilhas que impõe verdadeiras provas de fogo a quem utiliza as calçadas de Belo Horizonte. Basta um passeio rápido para perceber: existe pouca – em alguns locais, nenhuma – acessibilidade para os deficientes físicos, na capital mineira. Neste domingo (18), um grupo de cadeirantes aproveitou o lançamento do livro “A Estranha”, de Marcelo Xavier, para realizar uma cadeirata (passeata em cadeiras de rodas) pelas ruas do bairro Santa Efigênia, na região Leste. O resultado: muita dificuldade para concluir o passeio.

Para o autor da obra, cadeirante há 6 anos em função de complicações de Esclerose Amiotrófica Lateral, falta sensibilidade e respeito por todos. "A Estranha", como foi batizado o 19º livro do mineiro, é nada menos que a própria cadeira de rodas.

"É fundamental haver uma mudança de olhar das pessoas. Há um preconceito total com a limitação, seja ela de que forma for", diz Marcelo Xavier, que costuma comparar o descaso com os cadeirantes ao antigo hábito, hoje proibido, de fumar em locais públicos. "É o mesmo tipo de absurdo. Calçadas sem qualidade comprometem a vida de todos, não só de quem é cadeirante", reforça.

Prefeitura reconhece

A cadeirata percorreu o quarteirão da rua Piauí, nas proximidades da avenida Brasil, no bairro Santa Efigênia. Conforme o Hoje em Dia mostrou na edição deste domingo, falta muito para que Belo Horizonte se transforme numa cidade realmente acessível a todos.

A prefeitura reconhece que a questão é complexa e que não será resolvida rapidamente. Afirma, porém, que a gestão atual assumiu a acessibilidade como uma ação estratégica e que tem se esforçado.

Falta cuidado

Portadora de mielite transversa - doença neurológica causada por uma inflamação na medula espinhal - e dependente de cadeira de rodas desde a infância, a redatora e revisora Laura Martins, de 49 anos, mantém também um blog no qual trata da questão (cadeiravoadora.blogspot.com).

Para ela, as calçadas são mal cuidadas, até mesmo em bairros da Zona Sul onde, segundo ela, concentram-se os maiores esforços do poder público. "Também faltam vagas de estacionamento exclusivo que, quando existem, estão quase sempre ocupadas por quem não deveria estar ali", pontua.