Uma calculadora – ou score – desenvolvida por pesquisadores da UFMG está disponível, gratuitamente (acesse aqui), para ajudar profissionais da linha de frente contra a Covid-19 a identificarem de forma precoce pacientes com risco de morte e decidir, por exemplo, quem precisa mais de uma vaga na UTI. O estudo que levou à criação dessa calculadora, realizado e testado em hospitais de cinco estados do país (Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), de março a dezembro de 2020, apurou que, dos doentes com Covid que precisam de UTI, 47,6% morrem.

Feito em hospitais de diferentes portes, públicos e privados, com poucas ou muitas vagas de UTI, o levantamento – que mobilizou 150 profissionais de saúde e 27 estudantes de medicina e de enfermagem – concluiu ainda que, de cada cinco pacientes internados com a doença, um vem a óbito. Entre os que precisam de respirador, o índice de mortalidade é ainda mais assustador, chegando a 60% – contra 45% da média mundial.

Antibióticos

Uma das constatações que mais preocupam a coordenadora do projeto, a professora da Faculdade de Medicina da UFMG Milena Soriano Marcolino – pós-doutora em Infectologia e Medicina Tropical –, é a de que antibióticos têm sido usados de forma indiscriminada contra a Covid-19.
Segundo ela, 87,9% dos pacientes alvos do estudo receberam antibióticos, mas só 13% tiveram alguma infecção bacteriana. “Até pacientes que não são internados tomam antibiótico. E nem sempre é automedicação. São médicos prescrevendo, por dificuldade de lidar com a ausência de tratamento específico para a doença. Isso é muito preocupante, porque poderemos ter, em um futuro próximo, um quadro de alta resistência a antibióticos”, alerta.

Como funciona

A calculadora, explica Milena Marcolino, reúne dados clínicos do paciente quando ele chega ao hospital. São atribuídos pontos com base em idade, função renal, comorbidades (pressão alta, diabetes, câncer, derrame), proteína reativa (o quanto o corpo está inflamado), oxigenação do sangue, contagem de plaquetas e frequência cardíaca. 

“Esse paciente com risco mais alto de mortalidade precisa de reavaliações mais frequentes. Por outro lado, diz ainda, o risco baixo não quer dizer que o paciente pode ir para casa.

Seguindo rigorosa metodologia internacional, observa Milena Marcolino, a calculadora foi desenvolvida a partir do uso de uma base de dados de 4.000 pacientes de 36 hospitais brasileiros. Daí ser denominada também de score, já que usa testes estatísticos para avaliar quais características clínicas e laboratoriais dos pacientes estão relacionadas à maior chance de mortalidade. A eficácia já foi aferida em dados de mais de 1.000 pacientes dos mesmos hospitais e também em doentes da Espanha.

O objetivo principal do trabalho, aponta a coordenadora, é ajudar a salvar vidas. Ela revela que foi procurada por um hospital de Manaus – município do país em situação crítica – também interessado em participar do estudo. A médica frisa que a ideia é que a calculadora possa ser usada por profissionais de saúde de hospitais de todo o país. Para os que têm dificuldade de acesso à internet, está sendo feita uma versão impressa.