Já está disponível para download e leitura on-line a cartilha "Minha Tatu, Minhas Regras", criada por tatuadoras de Belo Horizonte para combater o assédio em estúdios de tatuagem. Clique aqui para acessar a plataforma de download.

As recentes denúncias de abusos contra mulheres durante sessões de tatuagem – que levaram, inclusive, à prisão de um tatuador de Belo Horizonte – motivaram o grupo de artistas. Inicialmente elas se reuniram para ressignificar as tatuagens das vítimas dos crimes, mas depois viram nessa situação uma oportunidade de alcançar mais pessoas e evitar que mais casos como os relatados aconteçam. “Um ponto em comum que identificamos com as denúncias apresentadas à Duda [Salabert] foi a falta de informação sobre o procedimento, que era usada em favor dos abusadores para cometer o crime”, explicou Thereza Nardelli, uma das integrantes do movimento.

Em um formato bastante educativo e didático, o material traz dicas e cuidados para evitar situações de assédio durante as sessões. O conteúdo do material aborda temas como o comportamento adequado do profissional perante a cliente, como identificar situações de assédio e como reagir quando um ato inapropriado for percebido.

Entre os pontos destacados pelas tatuadoras, estão:

1 - Você não precisa se despir: ficar sem o sutiã, por exemplo, só é necessário se a tatuagem for no mamilo;

2 - Atenção ao excesso de toque. Se o profissional encostar demais fora da área onde o desenho está sendo feito, em locais inapropriados, desconfie. Às vezes acontece sem querer ou o tatuador precisa tocar, mas ele sempre vai te avisar se esses forem os casos;

3 - Fotografias somente se autorizadas. Se um tatuador pede que você pose nua ou seminua para mostrar a tatuagem, não permita se este não for seu desejo;

4 - Assédio também pode ser verbal. Além do toque, o assédio também pode acontecer na conversa ou até no olhar. Fique atenta, se algum desses aspectos incomodar, não tenha medo de ir embora. É possível concluir o trabalho com outro profissional.

5 - Você não precisa tocar o tatuador. Se o profissional pedir que você repouse a mão em alguma parte do corpo dele, não obedeça, não é necessário em momento algum que a cliente se apoie no tatuador.

Além da disponibilidade pela internet, a cartilha também será distribuída em estúdios parceiros no formato impresso e foi pensada para circular em todo o território nacional. 

A cartilha no formato digital pode ser encontrada no site da Find Tattoo, uma das empresas que ajudou no financiamento do projeto. Em uma entrevista ao Hoje em Dia, a fundadora da empresa, Luciana Leal, convidou outros empreendedores a ajudarem a causa. "Espero que outros empreendedores também venham nos ajudar, porque essa causa é muito importante, assédio não pode ter lugar”.

Lançamento

O material foi pré-lançado nesta segunda-feira (13) em uma roda de conversa para profissionais da área e será lançado pra o público em geral pelas criadoras nesta terça-feira, na Casa Juta, em um evento que vai reunir as DJs Naroca e Sandra Leão para festejar a união das artistas contra o assédio. O evento é gratuito e começa às 18h.

Entenda

Uma publicação da ativista, professora e ex-candidata ao Senado Federal Duda Salabert foi a responsável por trazer à tona centenas de relatos de assédio em estúdios de tatuagem. No entanto, chamou a atenção de Duda a alta concentração de casos envolvendo o nome do tatuador Leandro Caldeira. “Das cerca de 100 que eu recebi logo de cara, pelo menos 40 eram contra ele”, contou ao Hoje em Dia na ocasião.

Dentre os casos, o relato mais antigo apurado pela reportagem é de 2011 e o sentimento expressado com unanimidade pelas vítimas entrevistadas pelo Hoje em Dia é o medo. "Mesmo eu, que sou feminista, ainda tenho pensamentos condicionados pelo machismo e, nesse caso, eu pensava que podia ser coisa da minha cabeça, que podia estar imaginando coisas, e isso me impediu de falar sobre isso, de denunciar, de contar para outras pessoas", contou uma das mulheres que denunciou o tatuador.

A Polícia Civil abriu um inquérito e apurou pelo menos 19 denúncias contra Leandro. As investigações culminaram na prisão do tatuador no dia 31 de março deste ano. O acusado está preso em Ribeirão das Neves desde o dia 1º de abril em regime fechado e responde pelo crime de violação sexual mediante fraude, crime do qual o tatuador se declarou inocente. À reportagem, o tatuador afirmou antes de ser preso que trabalha há 30 anos no ramo e sempre respeitou as clientes. "Tenho família, tenho uma filha que não para de chorar, um filho que não quer mais ir à escola e estou sofrendo com ameaças e crises de pânico. Eu preciso trabalhar e não consigo”, se defendeu. 

O crime de violação sexual mediante fraude consiste em ato de conjunção carnal ou ato libidinoso mediante o uso de meio que impeça ou dificulte manifestação de vontade da vítima. "Ele se utilizou de manobras enganosas para fazer com que as vítimas acreditassem que aqueles abusos fossem necessários para o procedimento de tatuagem", explicou a delegada Larissa Mascotte. Para este tipo de crime, a pena é de 2 a 6 anos por delito. 

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