Em meio a uma grave epidemia de dengue no Estado, outra doença começa a avançar. Em um período de apenas quatro anos, os casos de caxumba em Minas aumentaram 204%, passando de 1.371, em 2015, para 4.166 registros, em 2018. Em 2019, até o meio do mês de abril, já foram notificados 813 casos de caxumba no Estado. 

Em Belo Horizonte, somente neste ano, foram registrados 69 casos da doença. Em todo o ano passado, foram 719 registros, segundo a diretora de Promoção à Saúde em Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), Lúcia Paixão. 

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), a caxumba é uma doença viral contagiosa que se manifesta por febre, dor de cabeça e inchaço nas glândulas salivares, sublinguais ou submandibulares. Ela pode durar de uma semana a 10 dias e é transmitida pelas vias aéreas por meio de perdigotos ou até mesmo pelo contato com objetos, utensílios e mãos contaminadas com secreção. 

A farmacêutica, mestre em biologia celular e doutora em ciência da saúde, Nayara Medeiros, professora das Faculdades Kennedy e Promove, explica que os vírus da doença ficam presentes na saliva. “Em uma conversa, por exemplo, quando algumas gotículas de saliva são liberadas no ar, o vírus está presente ali e por isso pode infectar outras pessoas”, diz. 

A boa notícia é que a doença tem um índice de letalidade considerado baixo e sua forma de prevenção é a vacina, que pode ser encontrada gratuitamente nas unidades básicas de saúde em todo o Estado. Trata-se da vacina tríplice viral, a mesma que previne também a rubéola e o sarampo. 

Fenômeno mundial

Segundo o coordenador de doenças e agravos transmissíveis da SES-MG, Gilmar Rodrigues, o surto da doença em Minas é um fenômeno mundial e se deve à falta de cobertura vacinal. “Outros estados do Brasil e vários países do mundo têm registrado um aumento da doença. A caxumba normalmente se manifesta em conjunto, já que é uma doença transmissível. Então, podem ser encontrados pequenos surtos em escolas, no ambiente familiar etc”, explica. 

Dessa forma, o surto generalizado é formado por vários pequenos surtos, já que, por se tratar de uma doença contagiosa, é comum que a caxumba se manifeste não somente em uma única pessoa, mas que se espalhe em outras pessoas daquele convívio, caso elas não estejam imunizadas. 

Conforme a diretora de Promoção à Saúde em Vigilância Epidemiológica da SMSA, Lúcia Paixão, este ano foram registrados três desses pequenos surtos na capital, enquanto no ano passado foram 14. “Quando identificamos uma pessoa diagnosticada com caxumba, ela é isolada de seu convívio e passamos a monitorar aquele ambiente. Caso haja um caso secundário da doença, o mesmo é feito. Normalmente, cada surto tem cerca de 10 pessoas com a doença. Essas pessoas são afastadas e a secretaria realiza o bloqueio vacinal, indo até a instituição, uma escola, por exemplo, e vacinando as pessoas que não estão imunizadas. Ainda seguimos monitorando o ambiente para verificar se a doença irá se manifestar em outras pessoas”, diz. 

A doença, que acomete principalmente crianças, tem se manifestado, recentemente, com mais força em adolescentes, jovens e adultos até os 29 anos. “Temos percebido um deslocamento da doença para esta faixa etária do adolescente e jovem adulto, principalmente por causa da baixa procura na vacinação por parte deste grupo etário”, explica Gilmar Rodrigues. 

Complicações

O infectologista Carlos Starling, diretor da Sociedade Mineira de Infectologia, explica que não há um tratamento específico para a doença. “O que são tratados com medicamentos são os sintomas. Mas a recomendação é repouso e hidratação”, afirma. Eventualmente, conforme explica ele, a doença pode gerar complicações como pancreatite, encefalite, infecção nos ovários e orquite - com possibilidade de esterelidade.

Em Belo Horizonte, não houve nenhum registro de complicação grave originada pela doença e em Minas, a caxumba nunca levou nenhum paciente à morte. Mas o alerta é válido para que as pessoas que manifestarem os sintomas procurem atendimento médico e façam os exames necessários para o diagnóstico correto. 

 Vale lembrar que quem não possui a carteira de vacinação ou não se lembra de já ter tomado a tríplice viral, é considerado desimunizado, e também deve se dirigir ao posto de saúde para ser vacinado. 

 

Confira abaixo, o calendário de imunização:

Vacinação de rotina:

- Aos 12 meses de idade, a criança deverá receber a primeira dose da vacina tríplice viral. 

- Aos 15 meses de idade, a criança deverá receber a segunda dose com a vacina tetraviral (contra o sarampo, a rubéola, a caxumba e a catapora/varicela) ou a vacina tríplice viral e a de varicela monovalente. 

- De 02 a 29 anos, caso não tenha nenhum registro de dose da vacina tríplice ou tetraviral, deverão receber duas doses com intervalo de no mínimo 30 dias da primeira dose. 

- Gestantes com até 29 anos, caso não tenham nenhum registro de dose da vacina tríplice ou tetraviral, deverão receber NO PÓS-PARTO duas doses com intervalo de no mínimo 30 dias da primeira dose. 

- De 30 a 49 anos, caso não tenha nenhum registro de dose da vacina tríplice ou tetraviral, deverá receber apenas uma dose. Gestantes de 30 a 49 anos, caso não tenham nenhum registro de dose da vacina tríplice ou tetraviral, deverão receber NO PÓS-PARTO uma dose da vacina. 

- Profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, dentistas e outros), independente da idade, devem ter duas doses válidas da vacina tríplice viral documentadas. 

- Profissionais de transporte (taxistas, motoristas de aplicativos, motoristas de vans e ônibus), profissionais do turismo (funcionários de hotéis, agentes, guias e outros), população privada de liberdade, viajantes e profissionais do sexo devem manter o cartão de vacinação atualizado conforme os esquemas vacinais de acordo com a faixa etária. 

Bloqueio vacinal:

- Deve ser realizado no prazo máximo de 72 horas após a notificação do caso. O bloqueio vacinal é seletivo. 

- Contatos a partir dos 6 meses até 11 meses e 29 dias devem receber uma dose da vacina tríplice viral. Essa dose não será válida para rotina da vacinação, devendo-se agendar a dose ‘1’ de tríplice para os 12 meses de idade. 

- Contatos a partir dos 12 meses até 49 anos de idade devem ser vacinados conforme as indicações do Calendário Nacional de Vacinação. 

- Contatos acima de 50 anos que não comprovarem o recebimento de nenhuma dose de vacina devem receber uma dose de tríplice viral.