Acompanhar a melhor rota no trânsito pelo celular, por meio do GPS, não é um costume apenas dos motoristas em Belo Horizonte. Motociclistas aderiram em massa à prática que, usada de forma incorreta, pode provocar distração e terminar em acidente. Acoplado em um suporte no guidão do veículos de duas rodas, o telefone já é uma ferramenta de trabalho dos pilotos, mas traz preocupação às autoridades e especialistas da área.

Uma portaria do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) permite o manuseio do smartphone apenas com a moto ou carro estacionado. A utilização em movimento, mesmo em breves paradas como nos semáforos, é proibida. Ligações e aplicativos de mensagens de texto também não são permitidos. Quem for flagrado comete infração grave, é multado em R$ 195 e perde cinco pontos na carteira de habilitação.

“O motociclista precisa estar atento e sempre com as duas mãos no guidão, exceto quando for dar um sinal de braço”, afirma o assessor de imprensa do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar, tenente Marco Antônio Said. Ele faz um alerta sobre o instrumento. “O celular tira a atenção e pode aumentar o risco de acidentes”, garante o oficial.

A opinião é compartilhada pelo vice-presidente da Associação Mineira de Medicina do Tráfego, João Pimentel. Ele explica que, com a atenção dividida com o telefone, as chances de ocorrências crescem consideravelmente. “Uma coisa está totalmente ligada à outra. Se você diminui a atenção, a capacidade de resposta ao imprevisto vai ser menor”.

Já o professor e especialista em engenharia de transportes Márcio Aguiar é ainda mais rigoroso. Para ele, a resolução do Contran deveria ser revogada, pois contribui para o perigo de colisões. “É uma norma que não controla nem fiscaliza se os motoristas estão usando o celular só para o GPS”, critica.

De janeiro a abril, 4.280 condutores foram multados por usar o celular enquanto dirigiam carros ou motos em BH, segundo o Batalhão de Trânsito

Acidentes

Não há estatísticas de pessoas que se envolveram em acidentes após o uso de mapas quando estavam nas motos. No entanto, os atendimentos prestados a motociclistas em ocorrências de trânsito cresceram mais de 10% no Hospital de Pronto-Socorro (HPS) João XXIII, em BH. De janeiro a 15 de maio deste ano foram 1.771 casos, contra 1.588 em igual período de 2018.

Cirurgião-geral e de trauma do HPS, Rômulo Souki também demonstra preocupação com o uso frequente dos smartphones. Segundo ele, 80% das vítimas são motoboys. O perfil mais comum é formado por homens, de 20 a 40 anos. Fraturas e traumatismos são lesões recorrentes. “O prejuízo social é incalculável, uma vez que o acidentado está em fase plena de produtividade. Trabalha, gera renda, paga imposto. Deixando de produzir, acaba por consumir outros benefícios, como o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)”.

O Contran foi procurado e, em nota, informou que "a transgressão à norma por conduta contrária à estabelecida deve ser combatida por meio de fiscalização, da mesma forma como ocorre com a falta de uso de cinto de segurança, capacete, etc", rebateu o órgão.

Fugir do engarrafamento

Em um rápido giro por vias do hipercentro é fácil ver o aumento dos suportes para celular nas motos. Impulsionados principalmente pelos aplicativos de delivery, os pilotos utilizam a tecnologia para fugir dos engarrafamentos. Para eles, essa é uma facilidade e já faz parte da rotina. A maioria garante que o uso é feito de forma segura.

O telefone, normalmente, é colocado na parte central da motocicleta, próximo aos indicadores de velocidade e combustível. “Trouxe melhorias para quem precisa se locomover. Nunca tive problemas, mas não aconselho o uso fora do foco de visão do trânsito”, afirma o engenheiro em segurança do trabalho Silvio Rezende, de 43 anos, que há 25 tem carteira de moto. 

A recepcionista Pauline Fernandes, de 27, também tem o equipamento. Diariamente, ela sai de Contagem, na Grande BH, para trabalhar na metrópole. “Ajuda muito a sair dos congestionamentos. Acho que facilita mais do que se eu tivesse que tirar o celular e ficar olhando o mapa sem uma mão no guidão”. 

Vice-presidente do Sindicato dos Prestadores de Serviço de Motociclistas e Motofretistas da Grande BH, Alexandre Brandão reforça que, se usado de forma incorreta “é perigoso”, mas destaca a facilidade oferecida. “Às vezes, no trânsito, não dá para tirar o celular e colocar uma localização”.

Crescimento das vendas

O uso mais frequente é confirmado em lojas do ramo. O preço do suporte varia de R$ 15, a versão mais simples, a R$ 150 no modelo completo com carregador. Dona de uma rede de assessórios, Irani Antunes disse que “a explosão de vendas começou no ano passado, com os aplicativos”. Em média, ela vende dez suportes por dia em cada estabelecimento.

Colaborou Lucas Eduardo Soares