A má conservação de espaços públicos pode ser um prato cheio para o mosquito da dengue. Cemitérios de Belo Horizonte acumulam lixo, mato alto e até goteiras em construções inacabadas, além de recipientes capazes de reter água parada. A falta de zelo contribui para o surgimento de criadouros do Aedes aegypti. Na capital, mais de 32 mil notificações da doença já foram registradas.

No Cemitério da Paz, no bairro Caiçara, região Noroeste, há muitos mosquitos próximo a um complexo que seria utilizado para a realização de velórios. O imóvel em desuso e sem portas tem 15 cômodos. Logo na entrada, é possível ver um pequeno vazamento de água no teto. 
Além da poça d’água no chão, há sujeira e vasos sanitários e ralos destampados. O local fica a cerca de cem metros do espaço onde ocorrem, atualmente, os velórios. 

“Fiquei abismado. As famílias vão ao cemitério em um momento de dor e ainda correm riscos”, disse um visitante, que pediu para não ser identificado.
O homem esteve por lá para um velório, mas ficou tão indignado com a situação que preferiu ir embora. “Fiquei por pouco tempo porque estava muito preocupado em não ser picado pelo Aedes”, acrescentou.

O drama enfrentado no combate à dengue não é exclusivo de BH. Em Minas, 147 cidades estão com incidência muito alta da doença

Ronda

Após o relato, a equipe de reportagem do Hoje em Dia percorreu os outros três cemitérios municipais de BH: Bonfim (Noroeste), Consolação (Norte) e Saudade (Leste). Nas duas primeiras necrópoles não foram encontrados focos do mosquito da dengue.

Porém, na Saudade, em uma só quadra, entre túmulos quebrados e malcuidados, garrafas pet, pratos e copos descartáveis com água suja foram encontrados. Um tambor, que aparentemente estaria sendo usado para obras, também tinha água parada.

O último balanço da Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostra que pelo menos 258 novos casos de dengue são registrados por hora em Minas Gerais

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Risco

A prevenção contra a dengue deve ser ampla. Tanto por parte da população quanto pelo poder público, alerta o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano.

“As pessoas devem se policiar e cooperar. Mas as autoridades também devem fazer sua parte, orientando e removendo os riscos para a sociedade”, garante o médico.

Na tentativa de frear as notificações, a SES anunciou verba de R$ 17 milhões para 32 municípios ampliarem as ações de enfrentamento

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Vazamento deixa poça d’água no cemitério da Paz

Limpeza

Os cemitérios são considerados pontos estratégicos pela diretoria de Zoonoses de BH, segundo nota enviada pela Secretaria Municipal de Saúde. Conforme o órgão, os agentes de combate a endemias realizam um monitoramento quinzenal, “com identificação de focos e aplicação de produtos químicos”. Recomendações são repassadas aos responsáveis pelos espaços.

De acordo com a PBH, a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica realiza a capina e a roçada dos locais regularmente. Nos primeiros meses deste ano, os trabalhos foram interrompidos em função das chuvas, que aceleraram o crescimento da vegetação.

Atualmente, acontece no Cemitério da Paz uma ação em regime de força-tarefa. Ao longo do ano, a Fundação atua na coleta de adornos depositados irregularmente nos jazigos que possam servir de criadouros de mosquitos, como vasos de flores.

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Vaso destampado em imóvel em desuso na Paz

Alerta

Pessoas com febre alta, machas na pele e dores no corpo devem ficar atentas e procurar as unidades de saúde. De acordo com o médico Estevão Urbano, a demora em buscar socorro pode piorar o possível quadro de dengue.  “Se tiver sintomas que durem mais de 48 horas, é fundamental ir a um hospital e iniciar um tratamento à base de hidratação”, recomenda. Segundo o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, é recomendável ingerir bastante líquido, de água a sucos.

Diante da epidemia, Belo Horizonte, que concentra o maior número de casos de dengue em Minas, instalou três Centros de Atendimento à Dengue (CADs). Os espaços para acolhimento exclusivo às vítimas funcionam no Complexo de Saúde do Barreiro e nas UPAs Venda Nova e Nordeste, das 7h às 18h.

Na última terça-feira, as unidades passaram a contar com reforço do Exército. Cinquenta e quatro militares atuam em funções administrativas nos CADs e nas tendas montadas para acolhimento de pacientes com sintomas da doença. Médicos da Polícia Militar (PM) também auxiliam na região do Barreiro, onde há um número grande de pacientes.