Quem vive às voltas com o medo de ter casa e comércio invadidos pelas cheias busca forças para recomeçar – mais de uma vez. As enchentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), registradas este mês, têm tirado o sono e mudado a rotina de muitas pessoas. O temor vai além das perdas materiais e cresce a cada anúncio de novos temporais.

“Neste período, eu nem durmo. Tive que entregar meu filho recém-nascido pela janela para salvar a vida dele”, conta a auxiliar de produção Rafaela Michelle da Silva, de 32 anos. Ela mora às margens da avenida Teresa Cristina, região Oeste da capital, que voltou a inundar no domingo por conta da cheia do ribeirão Arrudas.

Somente neste ano, o imóvel onde ela vive com os dois filhos e o marido foi alagado três vezes. Na última, a água subiu mais de um metro e meio. “Toda semana tenho que reconstruir minha casa. Até quando vou ter força para isso?”, questiona.

Há cinco dias, Rafaela Michelle perdeu tudo que tinha por causa do transbordamento do Arrudas. “Ganhei cama e geladeira que só pude usar uma vez. Agora tenho que esperar o período de chuva passar para fazer uma campanha e tentar arrecadar algo, porque comprar tudo é impossível”.

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A casa de Rafaela Michelle foi alagada três vezes somente neste ano; da última, ela passou o filho pela janela na tentativa de salvar a vida da criança

Sem rumo

A mãe da auxiliar de produção, também moradora da região, não conseguiu salvar quase nada dentro de casa. Desempregada, Margarida Iansen, de 58 anos, diz que, além dos bens materiais, está vendo a saúde ir embora com as cheias. “Passo mal toda vez que isso acontece, e tem sido cada vez mais frequente. Estou desesperada. Perdi meu marido há dois meses e não sei como reconstruir a vida”.

Quem também está sem rumo é o comerciante Guilherme Batista Neto, de 48. “Em 2008 já havia perdido tudo. Moro aqui há 48 anos e, desde então, já contabilizei mais de 20 vezes que a água invadiu minha casa”, relembra.

Ele diz que, no último domingo, da casa e do pequeno bar que ele abriu para sustentar a família (mulher e filho) não sobrou muita coisa. “E esse sofrimento tem se repetido quase todos os dias”.

Histórico

Nesta segunda-feira (20), o prefeito Alexandre Kalil classificou o temporal do último domingo como histórico e afirmou que nenhuma obra seria capaz de segurar a força da água. “Esse é um dado que me assustou”, pontuou.

Técnicos do Executivo avaliaram os prejuízos e iniciaram as obras de mitigação da Teresa Cristina, que teve o asfalto arrancado em vários trechos. Situação de emergência deve ser decretada ainda hoje. A medida visa a conseguir verba federal para obras.

A PBH garantiu que um decreto, a ser publicado nesta terça-feira (21) no Diário Oficial do Município (DOM), vai viabilizar obras de reconstrução da avenida Teresa Cristina.