Luto sem adeus. Essa é a realidade que parentes e amigos de vítimas da Covid-19 enfrentam na hora da despedida. Com velórios vetados devido ao risco de contaminação pelo vírus, muitos não têm a oportunidade de dar adeus aos seus entes queridos. Foi o que aconteceu com a travesti, artista e dançarina Vina Amorim. Sem poder se despedir da avó, a artista realizou uma ação emocionante na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, na região Central de Minas Gerais, homenageando cada uma das 150 mil pessoas mortas no Brasil pelo coronavírus.

O ato, que foi batizado com o nome de "Lourdes não é um número”, homenageia Lourdes Ribeiro da Silva Amorim, avó da artista, que foi enterrada com suspeita da Covid-19: "Minha avó morava no interior de São Paulo, e eu não pude viajar  nem dar o último adeus devido à pandemia. Não consegui me despedir", conta.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Envolvida por um saco plástico de alta resistência usado para embalar as vítimas do vírus, vestida com as roupas da avó e máscara, a artista começou sua homenagem nesta segunda-feira (19), às 17h na Praça Tiradentes. 

Durante 21 horas praticamente sem interrupção, permaneceu imóvel para velar a morte das vítimas da Covid no Brasil. A performance foi transmitida no instagram de Vina de hora em hora durante 15 minutos, remetendo aos 150 mil mortos, para que o público que não estava nas ruas pudesse acompanhar e velar as vidas perdidas em tempo real ou apos a finalização da transmissão. 

Confira o vídeo:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A Ação "Lourdes não é um número” começou hoje, dia 19/10, às 17:00 e consiste em um velório que dedica 1 segundo para cada uma das 150 mil pessoas mortas no Brasil por covid-19, totalizando 42 HORAS. Será realizada em duas fases que terão duração mínima de 21 horas. A artista permanecerá por esse tempo deitada, envolvida por um saco de envelopar pessoas mortas por COVID, cercada por uma faixa em um círculo de raio de um metro e meio, vestida com roupa sua avó, máscara e um coroa de flores com o nome da ação “Lourdes não é um número”, até completar o tempo total máximo da ação : 42 horas. A proposta surge do desejo de realizar o velório de sua avó. Lourdes Ribeiro da Silva Amorim, mulher, negra, violentada, mas fragilmente valente. Lurdes, uma mulher comum em nosso país, foi enterrada com suspeita de covid-19, e por isso não teve o velório realizado pela família. Essa realidade é semelhante a de pessoas de nosso país e retira um importante passo da elaboração da perda de um ente querido. O Objetivo é prestar uma homenagem a cada uma das mortes por covid no país a partir da sua história de vida e propondo refletir sobre esses novos hábitos em nossa sociedade: “Além disso ação vem como forma de não deixar que "o novo normal" apague as várias vítimas deste incidente que nos acomete ainda. O vírus ainda está presente e o estado tem usado dele para eliminar milhares de pessoas fragilizadas pela falta de estruturas básicas da vida", relata. A ação acontece na cidade de Ouro Preto/Minas Gerais. Nela, a artista que também é travesti, irá permanecer em estado vegetativo para velar estas várias vidas perdidas, que nos acostumamos a negar em forma de números, como se uma vida não valesse nem um segundo de pausa em nosso cotidiano. A performance será transmitida no instagram de hora em hora durante 15 minutos, remetendo as 150 mil mortes, para que o público que não está nas ruas, possa acompanhar e velar essas vidas perdidas por descaso do estado. A performance faz parte da finalização da disciplina de “Performance, Gênero e feminismo” ministrada pela professora Nina Caetano no programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da UFOP

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Durante a performance, a artista conta que sentiu um pouco de todos os sentimentos, inclusive medo, melancolia e tranquilidade: "Tive muitas sensações distintas durante o ato, como  pavor  e medo de morrer. As vezes também pensava na minha avó, isso me trazia tranquilidade e me conectava com o foco da ação no passar das horas. Entendi também em um momento que o tempo iria passar, então teria que ficar tranquila e respirar", lembra.

Vina faz questão de frisar que não realizou a ação sozinha. Contou com o apoio de testemunhas, amigos e da família: "Muitos amigos me ajudaram a filmar, publicar os vídeos, compartilhar, e também ficaram preocupados com o meu bem estar deitada na praça devido ao tempo chuvoso da cidade", conta.

A performance também faz parte da finalização da disciplina de “Performance, Gênero e Feminismo” do programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) ministrada pela professora Nina Caetano.

(*) Estagiária, sob supervisão da editora Cássia Eponine

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