Os próximos meses devem ser marcados pela chuva em Belo Horizonte, o que aumenta a preocupação de quem depende do transporte público. Faltam abrigos cobertos nos pontos de ônibus e, onde existe a proteção, muitas estruturas estão danificadas.

Na última semana, alguns locais de grande movimentação de passageiros foram percorridos pela equipe do Hoje em Dia. Tetos quebrados, ausência de assentos, ferrugem e sujeira são alguns dos problemas encontrados pelos usuários. 

De acordo com a BHTrans, existem 2.611 pontos de ônibus com proteção na capital. Desses, 1.300 devem ter novas coberturas até 2020. A mudança, que começou em julho do ano passado, deveria atingir a meta de trocar 500 estruturas até o fim de 2017. 

No entanto, para alcançar esse objetivo, considerando que apenas 253 foram substituídos, o consórcio contratado deveria instalar mais 247 em pouco mais de dois meses.

Só sinalização

Os abrigos antigos ainda deixam muita gente desprotegida. Em um dos principais corredores da cidade, a avenida dos Andradas, muitas das estruturas coberturas estão destruídas. Também há vários pontos que têm apenas a sinalização.

Há ainda paradas implantadas em locais questionados pelos usuários, como é o caso de uma na pista central da avenida. Lá, a cobertura foi instalada bem perto da margem do córrego e uma cerca impede que os passageiros se protejam completamente.

abrigos destruídosANDRADAS – Cobertura instalada impede que passageiros se protejam completamente

“Aqui, fica bastante cheio, principalmente nos horários de pico. Passam muitas linhas de ônibus. Essa cobertura quase não faz diferença, porque fica mais para lá (da cerca) do que para cá. Não dá para proteger nem do sol nem da chuva”, explica Simone Helena Lopes, de 53 anos, que mora na região. 

Em outro ponto da mesma avenida, que fica entre o Boulevard Shopping e a Câmara dos Vereadores, na região Leste, um dos abrigos perdeu quase toda a proteção. Mais à frente, no bairro Vera Cruz, perto de uma quadra de esportes, nem o banco foi poupado. “Além de terem arrancado o teto completamente, ainda levaram uma parte do assento”, conta Maria Moreira dos Reis, de 82 anos. Segundo ela, o espaço está assim há meses.

Estrutura

Alguns dos abrigos antigos, na cidade há mais de 15 anos, são vazados nas laterais e comportam poucas pessoas na estrutura de ferro. Os modelos novos têm proteção traseira e lateral, são feitos de metal e possuem iluminação. Além disso, contam com uma área exclusiva para cadeirantes e assentos para idosos, gestantes, deficientes e pessoas com criança no colo.

O caminhoneiro Antônio Sérgio, de 60 anos, está na expectativa para a chegada dos novos abrigos, que ele considera bem melhores. Usuário do transporte coletivo, ele pega ônibus todo dia na Praça Hugo Werneck, na região hospitalar, onde as estruturas também estão danificadas.

“Além de molhar quando chove, precisamos ficar amontoados nesse espacinho. Ainda há o risco de nos machucarmos, porque os galhos da árvore caem e passam pelo buraco”. Segundo o caminhoneiro, desde o início do ano o abrigo está degradado.

Sem prazo para reparos, associação pretende acionar MP para melhorias

Apesar de receber pedidos de manutenção e fazer vistorias frequentes pela cidade, a BHTrans informou que não há um prazo para os reparos. Segundo a assessoria da autarquia, tanto as novas instalações quanto os consertos são realizados por empresas contratadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

Procurada, a Emerge, do Consórcio PRABH, não foi encontrada. Conforme a BHTrans, a concessionária irá investir cerca de R$ 30 milhões para implantações e o mesmo montante ao longo do contrato de quatro anos para manutenção e inovação das estruturas. A empresa poderá explorar a publicidade dos equipamentos.

A Associação dos Usuários de Transporte Coletivo e Alternativo de Belo Horizonte deve protocolar, na próxima semana, um documento na BHTrans e no Ministério Público solicitando melhorias nos pontos e abrigos de ônibus. De acordo com a vice-presidente da entidade, Gislene Gonçalves dos Reis, frequentemente membros da associação circulam pela cidade conversando com os usuários, que relatam problemas.

Prioridade

Corredores mais importantes, como as avenidas Amazonas, Cristiano Machado e Antônio Carlos, estão na lista de prioridade quando se trata da substituição da estruturas. Nesses locais, segundo a BHTrans, há maior concentração de passageiros.

ponto de ônibus destruído
ANDRADAS – Na via, pontos estão com os abrigos sem cobertura; em alguns faltam até bancos para acomodar passageiros

No entanto, a autarquia informa que não são todos os locais com capacidade para receber os abrigos, por conta das dimensões do equipamento. Nem todos os 9 mil pontos de ônibus terão cobertura. 

“Em pontos que há mais ocorrência de desembarque do que de embarque não há prioridade para ter abrigo”, completa a nota da empresa. A meta da BHTrans é de que 70% dos usuários embarquem em pontos abrigados.

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MODERNOS – Novos abrigos, que estão sendo instalados na cidade, são maiores e têm até painel com horário dos ônibus

Além disso

Arquiteto e urbanista, Sérgio Myssior diz que o desenvolvimento sustentável das cidades pressupõe, entre vários princípios, a integração com a política de desenvolvimento urbano e a eficiência e eficácia na prestação do transporte coletivo. No entanto, “Belo Horizonte, apesar dos esforços com a implantação do Move, ainda apresenta uma clara deficiência nesse quesito”.

Para ele, qualificar os pontos de embarque e desembarque de passageiros é uma ação básica e muito importante, que precisa atender toda a cidade. Além disso, Myssior afirma que a modernização deveria vir acompanhada de outras ações para a qualificação do transporte.

O especialista cita outro aspecto que precisa de atenção: a acessibilidade. “Esse deveria ser considerado o ‘primeiro degrau de cidadania’, qualificando as calçadas, as faixas de pedestres, sinalização, dentre outros”, finaliza.