Após afirmar na última segunda-feira (8) que a Vale já sabia do risco iminente de rompimento da barragem B1 da Mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH, ocorrido em janeiro deste ano, o operador e mantenedor mecânico Fernando Henrique Barbosa Coelho voltou à CPI da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta quinta-feira (11) e apresentou documentos que reforçariam sua versão. A reunião havia sido marcada para uma acareação entre Coelho e quatro outros funcionários da Vale, que faltaram graças a uma liminar do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que tornou o comparecimento deles opcional.

Na última reunião, Coelho prestou depoimento como testemunha e afirmou que seu pai, Olavo Coelho, que acabou sendo uma das vítimas do rompimento, foi acionado mais de seis meses antes da tragédia para verificar um vazamento na barragem. Na ocasião, o homem, que já havia trabalhado na empresa e tinha conhecimentos técnicos sobre o assunto, informou aos gerentes que os danos na estrutura eram irreversíveis e que ela poderia se romper. 

A engenheira Cristina Malheiros, responsável à época pelo monitoramento da estrutura; o geólogo César Augusto Grandchamp, que assinou o laudo de estabilidade emitido pela empresa de auditoria Tüv Süd; o gerente da área de geotecnia Renzo Albieri Guimarães Carvalho, responsável pela gestão da mina; e o engenheiro Artur Ribeiro Bastos, que substituiu Cristina Malheiros após a tragédia, foram convocados para a acareação e, de acordo com o deputado André Quintão (PT), teriam a oportunidade de apresentar a versão da Vale sobre o assunto.

Com a falta dos quatro, Coelho levou aos deputados estaduais documentos internos da Vale para completar o depoimento prestado na segunda. Um deles, que trata de procedimentos de segurança, traz a determinação de que vazamentos com carreamento de materiais e vazão crescente devem ser classificados como nível 10 (máximo) de risco junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). Segundo Quintão, o registro da Vale apontava nível 6. Ou seja, haveria negligência na decisão de não avisar os órgãos competentes e evacuar a área.

Outro documento contém o Procedimento Operacional Padronizado, com indicações específicas para a área de geotecnia sobre como agir em cada circunstância. Segundo ele, Cristina Malheiros, responsável pela área e uma das convocadas para a acareação, não teria seguido as instruções quando foi avisada dos vazamentos.

A entrega dos documentos levou a CPI a solicitar à Vale o registro de todos os lançamentos no sistema de ocorrências relacionado à barragem B1. Segundo Quintão, a entrega da testemunha reforça o que a CPI já acreditava, que era a negligência da mineradora no trato com os problemas que a barragem apresentava.

Procurada, a Vale ainda não se manifestou sobre as novas solicitações.

Próximos passos

Na próxima segunda-feira (15), os deputados ouvem empresas terceirizadas que realizavam serviços na barragem em Brumadinho. Uma delas era responsável por instalar drenos horizontais profundos e outra era encarregada de serviços de manutenção na estrutura.

Em seguida, na quinta-feira (18), Quintão afirmou que Marcos Conegundes, coordenador do Plano de Ação Emergencial da mina, será ouvido como testemunha importante no caso. Além dele, outros quatro funcionários que teriam atuado junto ao pai de Coelho na constatação do vazamento no ano passado também prestarão depoimentos.

Para o mês de agosto, estão marcadas três audiências para apurar as consequências sociais do rompimento e definir a reparação às pessoas vítimas da tragédia. "Enquanto isso continuaremos avançando no relatório e esperamos que até o fim de agosto ele comece a ser votado na assembleia", declarou André Quintão.

Leia mais:
Diretores da Vale conseguem habeas corpus para não depor em CPI de Brumadinho