Imóveis abandonados têm sido alvo de uma varredura para evitar que a epidemia de dengue se alastre em Belo Horizonte. Em menos de quatro meses, o número de entradas forçadas em casas com entulhos e recipientes capazes de acumular água parada cresceu mais de 80%. Ontem, novo boletim divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde mostra que 21 mortes foram provocadas pelo vírus em Minas.

Até abril, fiscais da prefeitura estiveram em 11 residências para eliminar os focos do mosquito. Em todo o ano passado, o pente-fino ocorreu apenas seis vezes. A medida emergencial só é tomada após cinco tentativas frustradas de visitas pelos agentes de zoonoses, que não encontram os proprietários do local.

Embora as notificações da doença estejam mais frequentes – já são mais de 25 mil registros na capital –, a gerente de operação de campo da Zoonoses da PBH, Cláudia Capistrano, atribui o crescimento do acesso forçado a um descuido maior dos moradores. “A população deve ficar atenta o ano todo, mas quando estamos em uma ocasião de maior de risco é que isso vem à tona”, observa.

Uma equipe composta por chaveiro, fiscal sanitário e servidores da Zoonoses, Comunicação e Guarda Municipal abre a casa, registra a situação e faz o tratamento. “Não retiramos nada, recolhemos os materiais que acumulam água e colocamos debaixo de uma área coberta”, diz Cláudia. O interior da residência também é alvo da ação, sobretudo vasos sanitários e ralos, que são tampados. O controle com larvicida é feito e, em seguida, o local é fechado.

A medida é vista de forma positiva, mas deveria ser realizada constantemente, avalia o engenheiro sanitarista Hiram Sartori. “É preciso fazer a verificação, principalmente onde há focos de dengue. A responsabilidade é tanto do proprietário quanto do município. Se ele (morador) não adota essa atitude de forma rápida, os custos de saúde aumentam”, afirma Sartori, que é coordenador do curso gestão em resíduos sólidos da PUC Minas.

No bairro Eymard, na região Nordeste da metrópole, uma casa chegou a ser notificada duas vezes por necessidade de limpeza, conforme consta no Diário Oficial do Município (DOM). O imóvel está vazio, com mato alto, entulho e janela e telhas danificadas. O cenário é de completo abandono, com o portão quebrado e preso por uma corrente. 

“Meu medo é ficarmos todos com dengue por conta disso. Minha mãe e minha irmã já tiveram. É uma doença que paralisa a pessoa, você não consegue trabalhar”, comentou um vizinho. O proprietário do imóvel não foi encontrado. 

Visitas

As visitas periódicas a residências são realizadas cerca de cinco vezes ao ano por agentes de combate a endemias. Para quem não fica em casa em horário comercial, o trabalho pode ser feito à noite, mediante agendamento. 

Mas a Secretaria de Saúde reforça que o papel dos vizinhos é fundamental. “Conversamos para ver se a pessoa se mudou, se desapareceu. Também vamos em prédios e casas mais altas para identificar os criadouros”, acrescenta Cláudia Capistrano.

Óbitos provocados pelo vírus aumentam 75%

O número de mortes causadas pela dengue em Minas cresceu 75% em apenas quatro meses. Além das 21 pessoas que já perderam a vida após contrair a doença neste ano, conforme o balanço da SES, 66 óbitos estão em investigação.

Uberlândia, no Triângulo, está no topo da lista, com oito mortes. Na sequência aparecem Betim (Grande BH), com sete, e Unaí (Noroeste de Minas), com duas.

Em uma semana, o Estado registrou 25 mil novos casos prováveis da doença – número inclui as confirmações e as notificações suspeitas. No boletim divulgado há sete dias, eram 140.754 registros. Já no de ontem, 165.853.

Em nota, a SES informou que Minas viveu três grandes epidemias de dengue (2010, 2013 e 2016) e que os casos em 2019 ultrapassaram os registros em anos não epidêmicos. “Até o momento, 2019 segue a tendência de anos epidêmicos, no entanto, com menor intensidade”.

Emergência

Dentre as medidas adotadas para conter o avanço da doença, foi declarada Situação de Emergência em municípios de algumas macrorregiões de saúde. Com a ação, será possível mobilizar recursos de forma mais ágil para o enfrentamento do Aedes e estruturar serviços de atendimento aos doentes, diz a SES.

Também foram aprovadas as liberações de verbas, que somam mais de R$ 8 milhões para cidades com incidência alta ou muito alta da doença. Uma força-tarefa foi montada, além de planos de contingência estadual e municipais.

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