Profissionais das áreas de engenharia, geotecnia e mineração, fiscais e órgãos do poder público estão discutindo esta semana, em Belo Horizonte, técnicas de segurança em barragens de contenção de rejeitos minerais. Desta segunda-feira (15) até quinta-feira (18) palestrantes de todo o mundo debatem com técnicos do governo e estudiosos sobre as nuances da fiscalização de barragens do Estado.

A Semana de Estudos Técnicos de Barragens de Mineração é promovida pela Agência Nacional de Mineração (ANM). Dentre os temas abordados no encontro estão formas alternativas de disposição de rejeitos, que podem ser tanto o reaproveitamento do material quanto o uso da cava como espaço de disposição. Contudo, nenhuma alternativa, segundo os especialistas, retira a necessidade do uso da barragem por isso a importância da discussão.

O engenheiro geotécnico Paulo Franca, com mais de 30 anos de experiência em geotecnia foi um dos palestrantes. No seminário, ele explicou que algumas técnicas que exigem um uso menor das barragens já são usadas por empresas mineradoras no Brasil e que podem ser uma alternativa menos perigosa de barragens.

"Um exemplo é o que a Samarco está fazendo em sua retomada. Essa retomada está baseada em duas alternativas. Uma que não é tecnológica, mas é locacional, que é a utilização da cava de mineração exaurida para dispor rejeitos enquanto eles usam essa cava, eles vão construir uma usina de filtragem e daí uma grande parte dos rejeitos continuará a ser disposta de forma a seco",  explicou.

Em dezembro de 2016, o Hoje em Dia mostrou que esta alternativa seria usada pela Samarco na mina de Timbopeba, em Ouro Preto, na região Central do Estado. Todavia, apesar de ser economicamente viável, Franca ressalta que há entraves para o uso deste tipo de disposição de rejeitos, principalmente ecológicos e de recursos naturais.

"Algumas condições têm que ser preenchidas. Uma delas, por exemplo, é junto a Agência Nacional de Mineração, porque você pode estar negativando que um outro bem mineral seja trabalhado. E o bem mineral pertence a união", afirmou.

Hidrelétricas

A engenheira civil Regina Moretti acredita que a mineração está caminhando para fazer barragens parecidas com os modelos feitos em hidrelétricas no País, que são de segurança muito maior, na visão dela. Estas barragens, diferentes das de rejeitos, são feitas em uma única etapa, seguindo uma série de requisitos de segurança.

"Desde que sejam bem projetadas, elas vão funcionar muito bem. As barragens que caíram tinham um defeito original, para montante. Hoje estão proibidas e tipos mais perigosos vão cair em desuso. Vamos passar a ter barragens construídas ou numa etapa única igual as usinas hidrelétricas, ou alteadas por a jusante, mas sempre sem apoiar nada em cima dos rejeitos”, ponderou.

Para Moretti, contudo, evitar novos desastres passa por capacitação de fiscais e preocupação dos órgãos com a forma como as barragens são construídas. A promotora Andressa Lanchotti, do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que atua na frente de trabalho sobre a tragédia da Vale em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, em janeiro deste ano, concorda e por isso vê como primordial a participação do órgão nesta semana técnica.

"A atuação sinérgica e integrada das instituições é fundamental para a efetividade e celeridade na busca por soluções. Da parte do Ministério Público, estamos fazendo o possível para fortalecer este órgão regulador, porque nós vimos que há carências humanas e materiais muito importantes ainda a serem sanadas e isso é uma necessidade para a prevenção de novos desastres. Por isso, estar neste seminário capacita-nos mais a entender as nuances dos processos seguros de construção e atividade de barragens", afirmou.

Veja abaixo a programação completa da Semana de Estudos Técnicos de Barragens de Mineração:

 

Semana de Estudos Técnicos de Barragens de Mineração é promovida pela Agência Nacional de MineraçãoEvento é fechado a técnicos e profissionais da mineração

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