O meio de transporte é antigo e já era utilizado antes mesmo da invenção dos carros a vapor, no século 17. Os condutores, no entanto, são novos o bastante para fazer dessa combinação uma imagem curiosa em meio à paisagem urbana. Jovens carroceiros são o sinal de que os veículos de tração animal devem continuar por um bom tempo sendo um ponto de contraste em meio à frota de Belo Horizonte. 
 
Por trás das rédeas não estão apenas meninos cheios de coragem para disputar espaço em meio aos modernos automóveis nas avenidas mais movimentadas da capital. Também estão representantes de uma geração que, diante das poucas oportunidades, se dispôs a garantir o próprio sustento por meio dessa atividade. 
 
Foi assim que Daniel Nogueira, de 18 anos, começou a trabalhar com o transporte de entulho para o bota-fora do bairro Santa Mônica, em Venda Nova. Desde os 9, ele já auxiliava outros trabalhadores da região e, aos 11, conseguiu comprar a primeira carroça. 
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CONVICÇÃO - Para Daniel Nogueira, de 18 anos, sempre haverá demanda para o serviço prestado pelos carroceiros.

Mesmo depois de arranjar emprego como padeiro, o rapaz não abandonou o ofício que já desempenhava desde a infância. Hoje, apesar de saber que pouquíssimos jovens da mesma idade se interessam pela atividade, Daniel garante que os carroceiros nunca irão desaparecer. “Tem muita gente que precisa dos nossos serviços, não vai acabar não”, diz.
 
Puxado pelo cavalo Baião, ele afirma que consegue ganhar até R$ 3 mil por mês quando há muita demanda. Mas Daniel diz estar desiludido com os rumos do país. “Até 2020 quero ir morar no exterior. Parece que o mundo não gira para nós aqui. Lá fora tem mais oportunidades”. 
 
Sonhos
 
Já para Ismael Santos, carroceiro de 18 anos do bairro Céu Azul, na Pampulha, as expectativas são melhores. O garoto, que ainda paga R$ 100 por semana para quitar o financiamento da carroça e do cavalo que comprou por R$ 5 mil, sonha em ser empresário do setor. “Quero adquirir muitos animais, investir nisso”, planeja.
 
No que depender do senso de empreendedorismo do jovem, o futuro será promissor. Além de se sustentar com esse trabalho, ele mantém um funcionário, de 34 anos, que o auxilia na rotina diária. 
 
“Eu trabalhava de catador no ferro-velho. Consegui juntar R$ 1 mil e dei de entrada para pegar a carroça e a égua. O nome dela é Branquinha”, conta Ismael. 
 
Conheça o jovem carroceiro Ismael Santos no vídeo abaixo:

Contratempo
 
Os planos dele, no entanto, podem ir por água abaixo se o projeto de lei 142/2017, em tramitação na Câmara Municipal de BH, for aprovado. Na prática, a iniciativa do vereador Osvaldo Lopes visa reduzir gradativamente o número de veículos por tração animal na cidade. A ideia é que, em dez anos, todas as carroças sejam substituídas por motos com caçambas. 
 
“A proposta é conseguir a abertura de crédito com algum banco de desenvolvimento para que essas pessoas consigam comprar as motos. Elas passariam a ter mais dignidade e se tornariam verdadeiras empreendedoras”, afirma o parlamentar.
 
Desvalorização e insegurança são desafios para carroceiros
 
Manter vivo um ofício tão antigo em uma metrópole como Belo Horizonte pode ser considerada uma missão heroica, sobretudo se for levado em consideração que a frota da cidade tem 1,9 milhão de veículos e 2,3 mil carroceiros. Mas lidar com a desvalorização da profissão é um problema ainda mais complexo. Quem afirma é Tiago Carvalho, de 26 anos, que há mais de uma década circula pela cidade levando todos os tipos de carga. 
 
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DISPOSIÇÃO – Tiago aposta na melhora da atividade mesmo diante do baixo retorno financeiro

 
“O preço de cada viagem ainda é muito baixo. Fica entre R$ 30 e R$ 60. Às vezes, até conseguimos tirar uns R$ 100, mas é difícil. Tem que ter muita procura, e isso é raro”, explica. 
 
Não bastasse o baixo retorno da atividade, muitos carroceiros convivem com o risco de perderem, da noite para o dia, o investimento feito a duras penas. Adenilson Nogueira, de 20 anos, teve a carroça e o cavalo furtados há menos de um ano.
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PERSEVERANÇA – Adenilson teve o cavalo e a carroça roubados, mas não desistiu da profissão

 
O jovem havia deixado o animal na porta de casa e, quando saiu novamente, o bicho já havia sido levado embora. “Foi muito difícil. Investi R$ 6 mil e nem tinha acabado de pagar. Como eu também não fiz seguro, perdi tudo”, lamenta o jovem. 
 
Fiscalização 
 
Em Belo Horizonte ainda não há fiscalização específica para os carroceiros. Porém, de acordo com a PBH, reuniões entre a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), Secretaria Municipal de Meio Ambiente, BHrans e o setor de Zoonoses já estão acontecendo.
 
A ideia é que seja elaborado um curso para licenciamento da atividade de carroceiro na capital. Dentre os itens a serem fiscalizados estarão o manejo e a saúde do animal, bem como a conduta no trânsito.
 
Além disso, serão verificadas as dimensões das carroças, o estado de conservação do aro dos pneus, o sistema de freios e demais itens para garantia da segurança viária e do conforto do animal, informou a prefeitura.