Cansaço ao menor esforço físico, picos de febre, perda persistente do olfato. Mesmo depois de curados, ainda existem pacientes sofrendo com sintomas relacionados à Covid-19. Os relatos não se limitam a quem apresentou a forma mais grave da enfermidade, mas até mesmo pessoas que não precisaram de internação. Há casos em que médicos acreditam que até outras doenças possam ter sido desencadeadas pelo novo coronavírus.

O tema ainda carece de estudos para entender o que, de fato, acontece depois que uma pessoa elimina o vírus do organismo. Respostas, inclusive, buscadas pela administradora de empresas Cláudia Bartolomeu, de 52 anos.

Diagnosticada em 19 de março, só três meses depois o olfato dela voltou ao normal. Em 20 de abril, 30 dias depois do exame que testou positivo, veio o cansaço. “Dava meio passo exausta. O médico descobriu um problema na tireoide, que ele ainda não sabe se foi causado pela Covid ou se eu já tinha uma predisposição e o coronavírus só acelerou o processo”, conta Cláudia, que teve sintomas moderados.

Há desconfortos após a cura, destaca a médica Sandra Sasaki, pesquisadora do Grupo Iron. A especialista explica que uma possível justificativa para o cansaço anormal é a perda muscular causada pelo longo tempo parado durante o isolamento.

A médica Sandra Sasaki diz que a volta do olfato pode levar meses, pois o nervo é uma das estruturas do corpo que demoram mais a se regenerar

Já a falta de ar ao fazer atividade física, por exemplo, é comum em casos nos quais houve comprometimento do pulmão. “A inflamação pode causar uma fibrose pulmonar”, frisa.

A médica relata, ainda, queixas de dores nas costas, principalmente em quem teve falta de ar, que duram até três semanas. “Talvez relacionadas ao esforço respiratório e ao quadro pulmonar. Esse sintoma geralmente regride”.

O cardiologista Diogo Umann observa, ainda, que em qualquer infecção, seja bacteriana ou viral, demora um pouco para o corpo voltar ao que era antes. “Houve uma ‘batalha’ no organismo. O grau de imunidade das células de defesa e as doenças prévias influenciam. Todo dia células nascem, vivem e morrem, mas a infecção exacerba mais esse processo e leva um tempo para regenerar o tecido”, destaca.

Temor

Quem também não vê a hora de o organismo voltar totalmente ao normal é a enfermeira Patrícia Monteiro de Castro Saporetti, que manifestou sintomas leves de Covid-19. Diagnosticada em 9 de junho, ela ainda percebe diferença no olfato e paladar, que só sentiu de novo 20 dias depois dos sintomas. “Mas hoje parece diminuído, minha boca ficou estranha, como se tivesse queimado”.

A filha de 5 anos também apresentou sinais na mesma época. “Ela teve picos febris. Após 15 dias, mais uma ocorrência. Dez dias depois, mais febre. A médica já a examinou e não achou nada. Agora, faremos o exame sorológico, que não fez no início. Temo que tenha tido alguma consequência (de Covid)”, diz Patrícia.