Quebra-molas feitos de cimento e a palavra “pare” pintada no chão. Por conta própria, moradores têm implantado sinalização de trânsito em ruas e avenidas de Belo Horizonte. A boa intenção, no entanto, pode se transformar em uma armadilha. O improviso elaborado sem critérios técnicos compromete a segurança na via, favorecendo o risco de acidentes.

Para muitos, o principal motivo para as medidas adotadas é a espera por uma solução, após pedidos feitos junto à BHTrans. Por dia, a média é de 16 solicitações de redutores de velocidade, placas, travessia de pedestre, dentre outros alertas usados para orientar o tráfego. Nos últimos três anos, foram quase 18 mil demandas na cidade. 

Um exemplo está na rua Campo Basso, no bairro Bandeirantes, na Pampulha. A via é uma das quatro que cruzam a rua Bérgamo. Em nenhuma esquina, porém, há a advertência de parada obrigatória. A situação levou a população a escrever “pare” no asfalto, com tinta branca, em um dos entroncamentos.

Sinalização viária

NA PAMPULHA – Advertência de parada obrigatória foi pintada no asfalto na rua Campo Basso, no bairro Bandeirantes

“Aqui tem muita criança que brinca na rua e os carros passam direto. Depois que fizemos isso, melhorou bastante. Os motoristas começaram a parar”, disse um motociclista que mora na região.

Sem consenso

Em outros locais, a mudança não é consenso, como na rua Júlia Evangelista Gomes, no bairro Mangueiras, na região do Barreiro. Lá, foram construídos dois quebra-molas em uma descida íngreme. Um deles está a poucos metros do cruzamento com a rua Luís Augusto Cruz, pegando motoristas de surpresa.

“Ficou ruim, você não imagina que tem um quebra-molas logo depois da esquina. Não há placa. A sorte é que minha garagem fica antes, mas muita gente não vê e passa correndo por aqui”, reclamou um morador da rua.

Na rua Hélio Ricaldoni Freitas, no bairro Serrano, na região Noroeste de BH, o cenário é o mesmo. Uma espécie de lombada foi construída na pista para conter o excesso de velocidade dos condutores. 

Alerta

Conforme o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a implantação de quebra-molas deve ser precedida por placas indicando a velocidade máxima permitida. O alerta deve ser colocado, no mínimo, a 50 metros de distância. Além disso, a norma determina a pintura de faixas amarelas na lombada para ajudar na visualização.

Para o tenente Marco Antônio Said, do Batalhão de Trânsito da PM, o anseio da população não pode contrapor a segurança viária. “O cidadão não pode sair fazendo as placas por si só, mesmo que de boa intenção, porque existe um padrão”.

Para o especialista em trânsito Márcio Aguiar, a sinalização improvisada pode ser justificada por falhas na gestão da BHTrans para atender às demandas. “A empresa precisa se antecipar. Uma obra assim, fora dos procedimentos técnicos, dificilmente vai dar certo. O risco de acidentes vai aumentar consideravelmente”.

Análise criteriosa

Segundo o diretor de Sistema Viário da BHTrans, José Carlos Mendanha, os belo-horizontinos podem propor mudanças, pois todas são avaliadas. “A gerência regional recebe e encaminha a um técnico”.

Ele criticou as alterações feitas por conta própria. “O morador precisa nos relatar a doença, não o remédio. Nosso papel é avaliar o contexto, o que é possível fazer ou não”. O prazo para a análise varia de dez dias a dois meses.

Segundo a Guarda Municipal, quem é flagrado alterando ou danificando a sinalização de trânsito é detido e encaminhado à Policial Civil, responsável por investigar o caso. A corporação realiza patrulhas preventivas, além de contar com o apoio de câmeras para monitorar a cidade.

(Com Lucas Eduardo Soares)