Pelo menos 11 pessoas perdem a vida todos os dias em acidentes de trânsito em Minas. No último ano, foram 4.317 mortes. Mas esse não é o único drama após as tragédias. Para cada óbito, seis vítimas ficam com sequelas permanentes e, muitas vezes, limitantes. São mais de 30 mil acidentados, muitas vezes escondidos no meio das estatísticas, que precisam conviver com amputações, paralisias e depressão.

Os dados do Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre – mais conhecido como Seguro Dpvat – não são capazes de medir o sofrimento dessas pessoas, como o casal Sueli Aparecida de Oliveira, de 40 anos, e Clay José de Souza, de 38. Moradores de São João del-Rei, no Campo das Vertentes, eles contam que “se despediram da antiga rotina” após um grave acidente. 

“Um motoqueiro veio em alta velocidade e bateu na nossa moto. Fomos arremessados. Meu marido perdeu o pé na hora e depois teve a perna amputada. Eu fui levada para o hospital achando que estava bem, mas também tive a perna amputada”, conta Sueli. A faxineira e o servente de pedreiro estão impossibilitados de voltar ao trabalho e sem dinheiro para pagar as contas. Recebem apoio de amigos e familiares, que começaram uma campanha no Facebook. A página “Caminhando com Sueli e Clay” é a única esperança para conseguirem uma prótese. “Tenho fé. Sei que vamos voltar a andar”, acrescenta Sueli.

Superação

Em 1991, um acidente de carro mudou a vida de Adriana Buzelin. Na época, ela tinha 23 anos, cursava relações públicas e era modelo profissional. Ela bateu o veículo em um poste e, hoje, está em uma cadeira de rodas. Depois do luto pelas sequelas, veio a luta pela superação. “Não conseguiria levar minha nova vida adiante se não chorasse a perda tão séria de movimentos, sonhos, carreira, valores, conceitos. Tudo precisou ser repensado para recomeçar”, relata.

Hoje, aos 48 anos, trabalha como modelo inclusiva, é artista plástica e escultora. “Sei que minha vida teria sido diferente sem o acidente. Mas ele trouxe uma busca por encarar desafios, o que me tornou mais forte”.

Subnotificação

Apesar de expressivos, os números do Dpvat são subnotificados, pois levam em conta apenas as pessoas que conseguiram indenizações após os acidentes de trânsito. “Nem todo mundo que teve as sequelas sabe que tem o direito”, garante o ex-presidente da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Ammetra), Fábio Nascimento.

Retomar as atividades básicas do dia a dia é um grande desafio 

São inúmeros os contratempos e desafios para quem sai de um acidente com sequela. “Nem sempre a rede pública tem condições de atender na velocidade necessária e dar todo o suporte para uma plena recuperação do acidentado”, diz o médico Fábio Nascimento.

Conforme a deputada federal Raquel Muniz, especialista em medicina de tráfego, o maior desafio é dar condições para que essas pessoas consigam seguir a vida normalmente. “Uma das necessidades é garantir que elas sejam incluídas no mercado de trabalho. 

Muitas não retornam às atividades por causa da dificuldade de acesso ao tratamento. Para boa parte delas até o transporte para chegar à fisioterapia é complicado. Outras têm doenças associadas como depressão e precisam de tratamento multidisciplinar”, afirma a médica.

Básico

Orgulhoso por conhecer todo o Brasil, “do Oiapoque ao Chuí”, o caminhoneiro Pedro Fariles de Souza, de 64 anos, ficou um ano e meio sem conseguir trabalhar por sequelas de um acidente, em 2012, na BR-040.

Foram três ossos da costela e o fêmur quebrados. Como consequência, uma perna ficou maior que a outra. A limitação física o impede de fazer viagens longas. Agora, trabalha mais no entorno de Belo Horizonte, onde mora. E o tempo gasto para fazer as entregas também é maior, já que precisa parar mais vezes em função das dores que sente pelo corpo. 

"Sou um sobrevivente. E isso é o que mais importa"
Pedro Fariles de Souza, caminhoneiro, 64 anos

“Não consigo andar rápido, não jogo mais futebol, só uso sapato sem cadarços porque não dá mais para amarrar, preciso de ajuda para cortar a unha dos pés. Parece pouco, mas é ruim sentir que não consigo fazer coisas básicas”, lamenta.

 

Independência

Quem também conseguiu seguir adiante depois de um tempo foi a jovem Paola de Assis Ribeiro, de 21 anos. Em junho do ano passado, um carro fechou a moto em que ela estava com o namorado em São João del Rei. Eles foram arremessados, e ela acabou perdendo uma das pernas. “Ou eu amputava a perna ou morria. Tinha que ser assim. Claro que dá tristeza, mas saí do hospital decidida a me recuperar”, relembra. 

Há quatro meses, ela colocou prótese e agora já caminha sem auxílio de bengalas. Passou no vestibular de zootecnia, na Universidade Federal de Lavras (Ufla) e se mudou sozinha para a cidade. “Assim que saí do hospital, bateu aquele medo de ficar dependente. Mas faço todas as minhas coisas, não dependo de ninguém”, relata.