O trabalho de cientistas mineiros que atuam no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas-MG) e na ONG Waitá pode tornar possível a reinserção de espécies silvestres, resgatadas em situação de risco, à natureza. O primeiro animal beneficiado pela pesquisa foi o tamanduá-mirim Zeca, solto na última segunda-feira (22), em Minas Gerais.

Segundo a bióloga e presidente da ONG Waitá, Fernanda Sá, o animal foi levado muito novo ao Cetas-MG após ser atropelado enquanto atravessava uma rodovia sobre as costas da mãe, que morreu. Zeca foi resgatado por uma pessoa que o levou ao centro de triagem. Após receber o tratamento necessário, foi escolhido como o primeiro da espécie para voltar à natureza. Antes, foi alimentado com mamadeira. 

"Animais pequenos como o Zeca, tratados com mamadeira, costumavam ser destinados a mantenedouros ou zoológicos porque havia o entendimento de que não conseguiriam se reabilitar o suficiente para voltar à natureza", conta a bióloga.

A conduta, entretanto, começou a incomodar os profissionais envolvidos no tratamento, que decidiram testar metodologias de reabilitação capazes de garantir a liberdade dos bichos. "O Zeca é o primeiro, e, se der tudo certo, vai mudar a forma como os próximos serão tratados", comemora a pesquisadora.

Cetas e Waitá

Pesquisadores responsáveis por desenvolver a metodologia

Pioneirismo

A metodologia utilizada para reabilitar o tamanduá inclui procedimentos usados com outros animais. Essa foi a primeira vez, porém, que o método foi aplicado em animais nas condições de Zeca, muito debilitado, após ficar órfão. Depois de cerca de um ano sendo alimentado com mamadeira, o animal foi preparado e colocado em um viveiro.

Os testes para voltar à natureza foram divididos em três etapas: treinamento alimentar, antipredação e enriquecimento ambiental. No treinamento alimentar, foram inseridos cupinzeiros e formigueiros no viveiro, como forma de ambientar Zeca como se estivesse no habitat natural, onde se alimenta de cupins e formigas. 

O enriquecimento ambiental consistiu na inserção de alimentos em locais de mais difícil acesso. "Colocamos bananas, por exemplo, dentro de buracos em troncos de árvores para estimular o olfato e estimulá-lo a explorar o ambiente", detalha a pesquisadora.

Já no treinamento antipredação, os pesquisadores apresentaram modelos de predadores, como cachorros, associados a estímulos negativos. A intenção era que o tamanduá identificasse os animais que ofereciam risco à vida dele. Humanos também foram apresentados como predadores para garantir o mínimo contato possível deles com o animal resgatado. 

Monitoramento

Agora, embora já esteja de volta à natureza, o tamanduá continuará sendo monitorado pelos cientistas mineiros graças a uma "mochilinha" que carrega nas costas. O equipamento tem, dentre outros apetrechos, um GPS que envia informações para os celulares dos pesquisadores e para uma antena de rádio - por meio da qual é possível localizar o mamífero na mata. 

O trabalho com Zeca foi realizado em parceria com professores da UFMG e da Universodade Federal de Ouro Preto (Ufop). A metodologia foi desenvolvida por Daniela Kayali Ferraz, aluna do curso de Biologia da UFMG, sob a orientação dos professores Adriano Paglia e Cristiano Azevedo.

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