O uso do celular ao volante gerou 11.424 multas aos motoristas de Belo Horizonte no primeiro trimestre do ano, segundo dados do Detran. Do total, 40% foram autuados por manusearem o aparelho enquanto dirigiam. 

Mandar ou responder mensagens, acessar as redes sociais ou procurar uma rota no GPS, só para citar alguns exemplos, são práticas ainda mais perigosas que aumentam o risco de acidentes no trânsito, garantem especialistas.

Apesar de ser considerada falta gravíssima com perda de sete pontos na CNH e multa de R$ 293,47, a infração é mais comum do que se imagina. Levantamento divulgado ontem pelo Ministério da Saúde aponta que, nas capitais, um a cada cinco condutores admite interagir com o smartphone enquanto conduz o veículo. 

Os dados são do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) referentes a 2018. Eles revelam, ainda, que a faixa etária entre 25 e 34 anos e com maior escolaridade é a que mais assume o comportamento de risco.

Em BH, não é difícil encontrar motoristas digitando mensagens e gravando áudios nos celulares no tráfego diário. Na avenida do Contorno, próximo ao bairro Prado, na região Oeste da capital, a reportagem do Hoje em Dia registrou mais de 15 flagrantes em questão de minutos.

Desatenção

Membro da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Ammetra), o médico Fábio Nascimento explica que dirigir um carro é uma atividade que envolve muitas habilidades. Portanto, destaca, o menor dos descuidos por motivar acidentes de alta gravidade.

“Se estiver a 60 quilômetros por hora, em dois segundos um veículo se desloca 36 metros. Ou seja, esse breve tempo de distração é suficiente para promover não apenas colisões, mas também atropelamentos com mortes”, explica.

O médico ainda ressalta que, se a pessoa decidir manusear o aparelho seja para ler ou digitar alguma informação, os riscos se multiplicam. “Acontece o tempo inteiro e as implicações são sérias. Prova disso são as mortes no trânsito, que só crescem”, alerta. 

Riscos

Professor de Planejamento Urbano, Mobilidade e Acessibilidade nas Faculdades Kennedy, Fernando de Oliveira Pessoa salienta que a maioria dos motoristas acredita que não vai se acidentar.

“O problema é que eles estão errados”, diz o docente, que prega punição mais rigorosa. “Nossa legislação ainda é muito branda, se comparada a outros países. Infelizmente, a tendência é piorar com a redução de multas e radares”, critica Pessoa.

Mesmo recursos permitidos podem se tornar armadilhas. Especialista em trânsito e transportes, Márcio Aguiar reforça que até uma conversa no viva-voz, dentro do carro, é capaz de retirar do motorista a atenção necessária para uma direção segura. “A utilização do celular precisa ser revista em todas as áreas da vida, não apenas no trânsito. Eu diria que esse é o mal do século”, avalia Aguiar. 

Fiscalização

Responsável pelo Batalhão de Trânsito (BPTran) da Polícia Militar, o tenente Marco Antônio Said afirma que, mesmo com campanhas educativas e com toda fiscalização feita diariamente na capital, os celulares se tornaram parte da vida dos cidadãos. 

“O problema é que ele tem deixado as pessoas alheias ao que acontece ao redor. Mas no trânsito, é imprescindível prestar atenção em tudo que está a volta”, reforça o militar.