A chegada à terceira idade pode impor cuidados especiais à saúde física e mental de qualquer pessoa com moradia fixa e estabilidade financeira. Mas para os idosos em situação de rua esse momento é ainda mais comprometedor. Não bastasse o cansaço físico, acumulado após anos de trabalho pesado, o convívio com a solidão pode trazer danos psicológicos profundos a essa população. 

O sexagenário Antônio Fernandes que o diga. Morando há dois anos embaixo de uma passarela de acesso à Estação São Gabriel, região Nordeste de Belo Horizonte, ele toma antidepressivos diariamente. Além disso, enfrenta crises frequentes de dor no ombro esquerdo, fruto de uma bursite que nunca foi devidamente tratada.

O senhor que durante toda a juventude trabalhou na construção civil sobrevive, hoje, com o auxílio de R$ 91 por mês do programa Bolsa Família e com o dinheiro da venda de materiais recicláveis. 

Ele não está sozinho. Mesmo sem um mapeamento oficial, a presença de idosos sob marquises e viadutos de Belo Horizonte é evidente e pode ser comprovada em todas as regionais visitadas pela reportagem do Hoje em Dia. 

Pai de quatro filhos, todos moradores do bairro 1º de Maio, Antônio conta que a relação com a família foi se deteriorando ao longo dos anos, apesar de ainda encontrar os parentes esporadicamente. 

Desanimado e com olhar cabisbaixo, ele conta que não sonha com “outra vida” e o único problema que gostaria de mudar é o consumo excessivo de álcool. “A gente aqui bebe mesmo”, admite. “Mas droga a gente não usa”, ressalta Antônio. 

Abusos

O alcoolismo também foi crucial para a chegada de Roberval Alves de Barros, de 60 anos, às ruas. Vindo de Nanuque, no Vale do Jequitinhonha, o ex-pedreiro que começou a beber com 11 anos mora em um lote repleto de mato, na orla da Lagoa da Pampulha, e conta que passa a maior parte do dia embriagado.

Olhos da rua

Sempre na companhia de “Pirata”, o ex-pedreiro Roberval Alves de Barros, de 60 anos, não se levanta do colchão sequer para buscar comida

Apesar de dividir o espaço com outros moradores em situação de rua, ele relata que a maior companhia é Pirata, um vira-lata com quem Roberto troca afagos o tempo inteiro, enquanto relembra com tristeza a própria trajetória.

“Eu sei que o melhor seria parar de beber e voltar pra minha casa. Eu só não consegui fazer isso ainda. Na rua, a gente nem sempre decide tudo”
Roberval Alves de Barros

A prostração é tanta que o morador afirma não se levantar do colchão nem sequer para buscar alimento. “Só almoço quando alguém passa aqui e deixa um marmitex ou uma sopa”, conta. 

Vulnerabilidade

Professora do curso de psicologia da PUC Minas, Maristela Costa de Andrade é coordenadora de uma pesquisa sobre envelhecentes e idosos em situação de rua na capital. 

Ela explica que as características desse grupo tornam a abordagem e a realização de ações específicas ainda mais complexas. 

“Eu não esperava envelhecer na rua. Meu sonho era ter um lugar limpo pra morar. O problema é que a vida não é fácil e falta muita solidariedade no mundo, principalmente entre os poderosos”
Antônio Fernandes

“É uma população onde há grande ocorrência de doenças nos pés, já que eles caminham muito descalços, e há presença forte de patologias como a tuberculose porque estão muito expostos”, cita Maristela.

A pesquisadora explica ainda que, na rua, mesmo os moradores que não chegaram aos 60 anos já têm características de idosos. “Isso sem falar nos problemas mentais, que são comuns e se agravam com o abuso de substâncias como o álcool”, conclui.

Estatuto garante proteção à terceira idade, mas lei é desrespeitada 

O ex-frentista Gilson José dos Santos, de 60 anos, já saiu e voltou para as ruas tantas vezes que não se lembra mais da primeira delas. Há um ano morando embaixo do viaduto Francisco Sales, região Leste da capital, ele tira seu sustento da reciclagem, como centenas de pessoas em situação de rua. 

Olhos da rua

O ex-frentista Gilson José dos Santos conta que mesmos os mais velhos são vítimas de crueldade nas ruas 

Sozinho, Gilson conta que sente saudades dos quatro filhos e cinco netos, mas os atritos o impedem de tentar uma reaproxi-mação da família. Na rua, avisa, se manter são e seguro é um desafio constante. “Mesmo sendo mais velho somos alvos de muita crueldade. Se não vigiar, a gente enlouquece mesmo”, diz.

Proteção

A realidade da terceira idade, no entanto, deveria ser bem diferente. É o que afirma a professora do curso de Direito da faculdade Milton Campos, Dinorá Carla de Oliveira, ex-integrante do Conselho Municipal do Idoso de Belo Horizonte. 

Ela afirma que o Estatuto do Idoso determina proteção especial a esse público e que até as possíveis ameaças aos direitos devem ser combatidas pela sociedade. “O problema é que nessa situação, a maioria deles nem sabe que existe a lei”, destaca.

A resistência dos idosos em situação de rua às equipes de abordagem também é um dificultador, diz Dinorá. “Eles não acreditam nas leis, porque já sofreram tanto e por um período tão longo que simplesmente não têm mais expectativa de melhoria”, afirma.

“Estamos em tratativas com a prefeitura e com o Ministério Público para a criação de um convênio que vai priorizar o suporte a esses idosos em situação de rua”

Dinorá Carla de Oliveira
advogada

A Secretária Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania, Maíra Colares, explica que a diversidade de perfis dentro da população em situação de rua exige atendimentos diferentes.

Segundo ela, a tendência é que as unidades de saúde se organizem para que todas tenham capacidade de atender à demanda desse público. Hoje, o Centro Carlos Chagas é referência na capital. 

“Esse esforço tem sido feito para atender moradores com doenças como tuberculose, HIV, e principalmente gestantes e puérperas. Mas todos estão no nosso radar”, diz.