MOSCOU – A porta da cabine é aberta e o sono dos passageiros interrompido pela funcionária da empresa estatal RZD. Acompanhada de uma tradutora voluntária, ela avisa que o trem chegará em São Petersburgo em 30 minutos. Nem um segundo a menos, os 15 vagões com 540 pessoas a bordo param na estação às 6h40, conforme a previsão da passagem.

Na Rússia, o melhor meio de locomoção que levou os fãs do futebol de Norte a Sul e Leste a Oeste foi o transporte ferroviário com pontualidade soviética. Além de seguir o cronograma religiosamente, os trens divididos em três tipos de classe, sendo a mais comum composta de cabine com quatro camas individuais, eram gratuitos para torcedores credenciados pela Fifa e profissionais da imprensa.

Não só o trajeto de oito horas entre as megalópoles Moscou e São Petersburgo entrou no calendário do “Free Ride” da Copa do Mundo. Havia longas distâncias que facilitaram a experiência do torneio no país de maior território do planeta. 

A reportagem do Hoje em Dia viajou para acompanhar três jogos da Seleção Brasileira no campeonato. Foram 96 horas e 58 minutos em trilhos russos, quatro dias cruzando florestas, rios e vilas numa distância total de 6.500 quilômetros. Seria como sair de BH e chegar à Cidade da Guatemala, na América Central, em linha reta.

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CONFORTO – Cabines russas contam com camas

O deslocamento de Sóchi para São Petersburgo (pontos dos extremos Sul e Norte) parecia impossível – 36 horas de viagem em um trecho. Já as idas da capital russa para Samara, por exemplo, custaram 29 horas no total, mas diluídas no conforto dos vagões e beneficiadas pelos trajetos noturnos à disposição do público.

“Os trens são excelentes. Ao menos os da Fifa em que viajei. Todos com cama, ar-condicionado, tomadas, luz para leitura e restaurantes. Os banheiros são limpos. Talvez o único pecado é os funcionários não falarem inglês. Fora isso, são de excelente qualidade e pontuais”, afirma o médico mineiro Marcel Lopes, que chegou à Copa após um ano e seis meses em viagem pela Ásia.

Ranking

Em termos de malha ferroviária, a Rússia só perde para duas superpotências ao redor do globo. Os Estados Unidos, que voltará a receber a Copa em 2028, lidera a lista, seguido pela China, o país de maior população. 

1,3 bilhão de pessoas são transportadas, por ano, pelo sistema ferroviário russo

São 87.157 quilômetros de trilhos no país do Mundial. Aqueles concentrados no lado Oeste levaram e buscaram 287 mil torcedores, 64% do total que se deslocou durante a competição (448 mil pessoas). 

O sistema de transporte ferroviário, que leva 1,3 bilhão de usuários anualmente e a quantidade similar em cargas, representa 81% do modal da Rússia, contra apenas 25% em terras brasileiras.