Às margens da avenida Antônio Carlos, um dos principais corredores de tráfego de Belo Horizonte, por onde circulam cerca de 90 mil veículos por dia, um canteiro com plantações de flores, hortaliças, verduras, temperos e ervas medicinais e para chás está sendo construído por voluntários. O espaço fica no Lagoinha, na região Noroeste, e surgiu com a duplicação da pista que corta o bairro, iniciada em 2005.

Até o começo deste ano o terreno não tinha qualquer utilização. Em março, um grupo de vizinhos e estudantes foi até o local e decidiu ocupá-lo, criando uma horta comunitária. Lá, são implantados os conceitos e técnicas da agroecologia, sem o uso de agrotóxicos e pesticidas. Segundo eles, foi preciso capinar a grama alta e preparar a terra para receber alimentos e outras espécies de plantas.

“Nós queríamos transformar essa área que é hostil, conhecida por ser violenta e concentrar usuários de drogas, em um espaço da cidade em que queremos viver e utilizar. A ideia é que os moradores da Lagoinha possam se sentir mais pertencentes ao local”, explica a atriz Cida Barcelos, integrante da equipe. 

Ela, que tem 59 anos e vive no bairro há seis, já havia tentado cultivar flores e plantas ornamentais no canteiro, mas queria investir em algo que “reunisse a comunidade”.

O grupo, formado por uma dezena de pessoas, adotou o nome Hortelões da Lagoinha. Já foram cultivados pés de boldo, cebolinha e tomate, além de plantas ornamentais. Todos os sábados, às 7h30, os membros se reúnem para cuidar do espaço e acompanhar o desenvolvimento da plantação. A proposta é que os produtos possam, depois, ser utilizados pelos moradores do bairro ou integrantes do projeto. 

N/A

VOLUNTÁRIOS – Vizinhos do canteiro e estudantes integram o grupo Hortelões da Lagoinha, criado em março deste ano

O mutirão é aberto a qualquer pessoa que queira aprender sobre agroecologia e participar da implementação da horta comunitária. A proposta é que os interessados possam expandir a prática para outras regiões. 

“Todo mundo que passar pelos viadutos ou pela Antônio Carlos vai acabar vendo a horta. Queremos que as pessoas tenham protagonismo e levem isso para outros locais. A proposta da ocupação é disseminar o ato de plantar em meio à cidade, ao ambiente urbano, naturalmente”, diz o artista plástico Pierre Fonseca.

Apropriação de áreas verdes também ajuda a combater a insegurança nesses espaços

Belo Horizonte tem, além deste, outros tantos canteiros e espaços abandonados, sem função prática para a cidade, que poderiam ser apropriados por moradores e ganhar uma nova função. A afirmação é da professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG Luciana Bragança. 

“Essas áreas remanescentes, abundantes na capital, não são praças. Normalmente, não são nem cuidadas, geram insegurança, ficam sujas e podem muito bem receber esse tipo de ação”, diz.

A urbanista, coordenadora do projeto Jardins Possíveis, que investiga a relação da natureza com o homem em espaços urbanos, acredita que experiências como a dos Hortelões mostram a importância da gestão compartilhada da cidade entre o poder público e a sociedade. Porém, ela lembra que é preciso garantir condições para que essas iniciativas sejam bem sucedidas.

N/A

PROTETORA – Moradora da Lagoinha, Cida Barcelos é uma das integrantes do grupo

“O município deve investir em uma política de reconhecimento e de financiamento, com transferência de recursos de manutenção, porque é bom para as duas partes. A comunidade se reúne, retoma o espaço público e cuida do local”, observa.

Atualmente, a metrópole conta com o projeto Adote o Verde, em que qualquer cidadão, associação de bairro, escola, empresa ou ONG pode se tornar responsável por um jardim ou outras áreas verdes. O adotante deve manter o local limpo e cuidado.

Em contrapartida, a prefeitura deve pagar contas de água e luz e fornecer apoio técnico. Para participar, é necessário procurar a regional responsável pelo espaço pretendido.