Retratos de amigos abraçados, autógrafos de famosos e até mensagens de carinho. Muitos bares têm o costume de registrar a presença dos clientes por meio de fotos, painéis assinados e, não raro, simples rascunhos em pedaços de papel. Bebendo nesta fonte, mas transbordando criatividade, um dos botecos mais famosos de Belo Horizonte vai ganhar um álbum de figurinhas para homenagear os fieis frequentadores.

Recanto de roqueiros e jornalistas, o Bar do João, na Savassi, lança no próximo mês o volume pioneiro, com 112 cromos. Uma democrática votação elegeu mais de 100 fregueses para estampar as 16 páginas previstas. O álbum e os pacotinhos, com cinco figuras, serão vendidos no estabelecimento. Assim como acontece nos tradicionais encartes com fotos de jogadores de futebol, o colecionador dependerá da sorte ao comprar ou trocar as figurinhas para completar a edição.

A coleção também dará destaque à história do bar, fincado na rua Tomé de Souza há exatos 29 anos. O proprietário, João Antônio Pimenta Júnior, lembrou do início difícil da caminhada, quando o boteco ainda funcionava nos fundos de uma galeria. “Tinha apenas um funcionário e o que garantia o nosso ganha-pão era a venda de salgados”.

No início da década 90, João conseguiu se mudar para um privilegiado ponto, de frente para a rua, quase esquina com a avenida Getúlio Vargas. Porém, o estilo “copo sujo”, carinhosamente chamado pelos frequentadores, continuou o mesmo no barzinho, que fica aberto de segunda a sábado, do meio dia ao último cliente.

Lá dentro

Na entrada do apertado estabelecimento de 22 metros quadrados, pilhas de engradados de cerveja. Lá dentro, estufa de salgados e um balcão abarrotado de tudo, como doces, cachaças variadas, destilados e uma miniatura do dono feita por uma cliente. Nas paredes e até no teto pôsteres de artistas e bandas consagradas como Rolling Stones e Beatles.

Trabalhando há 28 anos no espaço, o garçom Luizinho – apelido de Aloísio Antônio Soares –, é um dos funcionários mais queridos dos fregueses. Ele sabe na ponta da língua o nome e as manias dos principais clientes.

Apaixonado pelo bar, contou que tudo que conseguiu na vida foi com o “suor do trabalho”. “Tenho orgulho de fazer parte dessa história e fico muito feliz com as amizades conquistadas aqui. É cada cliente e cada história que você nem acredita”, disse o garçom.

E Luizinho tem razão. Basta cinco minutos de conversa com uma das frequentadoras mais assíduas, como a relações pública Marina Cardoso Lopes, de 32 anos. Ela foi a mais votada na eleição que escolheu as figurinhas do álbum. Moradora do bairro de Lourdes, vai toda semana ao boteco há mais de 15 anos. Quando era universitária, perdeu as contas de quantas vezes “virou a noite” de sexta-feira bebendo para, depois, ir cedo, no sábado, para a faculdade.

Até aí, tudo bem. O curioso – e ao mesmo uma grande demonstração de amizade – era a postura adotada pelo João. “Ele me obrigava a ir e às vezes até me levava. Vivia brincando comigo que não queria saber de cliente burra no bar dele”, recordou Marina. “Lá é tudo muito simples e o ambiente super agradável”.

Iniciativa deve atingir outras cidades

A iniciativa pioneira do álbum de figurinhas é do designer Alexandre Penido e do jornalista Gustavo Nolasco. Segundo eles, uma “expressão” dita repetidas vezes foi a principal fonte de inspiração. “Aqui tem frequentadores bem curiosos. Alguns meio malucos mesmo, mas no bom sentido da palavra. E aí, de tanto a gente falar ‘aquele cara é uma figura’ resolvemos colocar em prática a proposta”, contou Alexandre.

Frequentadores do boteco há mais de 15 anos, os amigos informaram que a ideia é criar novas coleções como essa de outros bares mineiros e até de estabelecimentos de outros estados. “Tem muita história bacana que merece ser contada. Estamos tendo contatos com bares de São João del-Rei, Campinas e Rio de Janeiro”, adiantou Gustavo Nolasco.