“Vivemos um clima de velório”, afirma o músico José Paulo Ribeiro sobre a situação dos moradores do distrito de Macacos (São Sebastião das Águas Claras), em Nova Lima, na Grande BH, após mais um toque de sirene pela Vale, ocorrido no fim da noite dessa quarta-feira (27). Desde o dia 16 de fevereiro, quando o alerta tocou pela primeira vez na comunidade, os 4 mil moradores vivem o medo de uma possível tragédia ambiental.

Para o músico, mesmo que boa parte dos moradores tenha sido avisada de que a sirene tocada nessa quarta era protocolar – porque houve um aumento para o nível 3 de segurança da barragem B3/B4, da mina Mar Azul –, isso provocou uma grande tensão aos moradores. “Imagina o sofrimento dentro das casas, quantas mães estavam abraçadas aos seus filhos enquanto a sirene tocava, tentando acalmar as crianças que estão com medo?”, diz Ribeiro.

A enfermeira Melina Francesquini falou que o toque da sirene é assustador para toda a comunidade, especialmente porque muitos ficaram sem saber o que fazer ao ouvi-lo. Segundo ela, toda a comunidade se pergunta por que o toque aconteceu às 23h45, se a Vale sabia, horas antes, que auditores independentes não atestariam a segurança da estrutura.

“Junto do barulho da sirene, vem o recado de que aquela é uma situação real de rompimento de barragem, que as pessoas devem sair imediatamente de suas casas e seguir a rota de fuga até o ponto de encontro. Mas, ninguém sabe ao certo qual é a rota de fuga ou ponto de encontro, porque não houve treinamento. Só colocaram umas placas com as informações”, reclama a enfermeira.

Mãe de uma bebê de 3 meses e de uma criança de 3 anos, ela afirma que não tem conseguido dar atenção à família no último mês. “Desde o toque da sirene, estou correndo com as demandas da nossa comunidade. Porque nós estamos fazendo tudo sozinhos, sem contar com ajuda da mineradora ou do poder público”, diz.

Professora de catequese e uma das coordenadoras do Alcoólicos Anônimos (AA) de Macacos, Lilian Miranda Costa teme a banalização do uso das sirenes (um toque foi dado por engano em Itabira nessa quarta) e que as pessoas não respondam de forma adequada em um real caso de rompimento de barragem. “Saí de Macacos e vi toda a população na rua, a polícia com sirenes ligadas, um clima muito tenso. Achei que eu não poderia passar pelo 'pare e siga' da estrada, porque a sirene seria tocada e aquela é uma região de risco. Mas, me deixaram passar”, diz.

“A gente espera que as pessoas que ficam atrás das mesas das empresas fiquem tocadas e consigam se colocar no lugar de quem está passando por isso diariamente”, afirma Lilian Miranda.

Segundo o coordenador da Defesa Civil de Nova Lima, Marcelo Santana, os moradores das regiões de Honório Bicalho e Santa Rita, em Nova Lima, passarão por um treinamento de evacuação em caso de rompimento da barragem. Essas regiões poderiam ser afetadas de forma secundária por um possível rompimento. De acordo com a prefeitura, a Defesa Civil de Nova Lima está de plantão, juntamente com a Defesa Civil do Estado, e está a postos para qualquer ação necessária.

A Vale informou que 248 pessoas da zona de autossalvamento da barragem da mina Mar Azul foram evacuadas em fevereiro. Elas estão hospedadas em hotéis e pousadas de Nova Lima e Belo Horizonte.

Questões

Além de conviver com o medo, os moradores de Macacos têm de lidar com outros problemas. Conforme o Hoje em Dia mostrou nessa quarta-feira (27), a economia do distrito declinou profundamente sem a presença dos turistas. Restaurantes, pousadas e lojas têm de lidar com a falta de clientes e, alguns deles, tiveram de fechar as portas.

Outra questão colocada pelos moradores é a educação. A Escola Municipal Rubem Costa Lima (que atende o Ensino Infantil e Fundamental) está fechada por estar a uma pequena distância da zona de autossalvamento, ou seja, a área que seria atingida num caso de rompimento de barragem da mina Mar Azul.

Foi a própria comunidade que exigiu o fechamento da unidade escolar e luta pela construção de outra escola provisória, para que as aulas possam voltar. O Ministério Público de Minas Gerais entrou na questão e exigiu que a Vale faça um espaço provisório para os alunos, mas a empresa pediu 90 dias para a entrega da obra.

“Você deixaria seu filho ir para a escola se soubesse que estaria perto de uma área de risco? Estamos entrando na Justiça para exigir que a Vale comece as obras imediatamente. Se ela não puder começar, então que nós façamos e ela pague por isso. Mas, não dá para ficar sem aulas. As mães estão deixando de trabalhar para ficar em casa com seus filhos”, afirma José Paulo.

A Prefeitura de Nova Lima e a Vale foram questionadas sobre as obras na escola provisória, mas a reportagem ainda não obteve retorno.

Entenda

Nesta quarta-feira, foi acionado protocolo para início do nível 3 do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM) para três barragens: B3/B4, da mina Mar Azul, em Macacos, em Nova Lima, na Grande BH; Forquilha I e Forquilha III, da mina Fábrica, em Ouro Preto, na região Central do Estado.

A Vale afirmou que as sirenes foram disparadas às 22h30 em Macacos, de forma preventiva, pois auditores independentes disseram, na terça-feira (26), que não atestariam a segurança da estrutura e a mineradora comunicou a decisão aos órgãos de segurança. A empresa garantiu que continua adotando medidas preventivas para aumentar a segurança das estruturas. No caso de Ouro Preto, mesmo com a elevação de risco, não houve acionamento do sinal.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) afirmou que equipes de fiscais estiveram na barragem de Mar Azul há poucos dias e não constataram riscos iminentes visíveis de rompimento.

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), em 18 de março, bloqueou R$ 1 bilhão das contas da Vale para reparação de danos aos moradores de Macacos. O órgão ainda recomendou que a mineradora garanta "a melhor assistência possível e um atendimento imediato às necessidades das pessoas que estão alojadas em hotéis e pousadas ou casas de parentes ou terceiros, quanto a transporte, alimentação, medicamentos, atendimentos de saúde e psicológicos e outros". O MPMG ainda determinou que a Vale revisasse toda a área de autossalvamento da barragem B3/B4, em caso de ruptura.

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