Uma prova aplicada aos alunos do 2º ano do ensino médio de um dos mais tradicionais centros educacionais de Belo Horizonte, o colégio jesuíta Loyola, localizado na região Centro-Sul da capital, virou assunto nacional nesta quinta-feira (10), após a anulação do teste pela instituição, o que culminou em uma grande mobilização nas redes sociais. O motivo para a indignação de muitos internautas foi o uso de um texto do comediante Gregório Duvivier com críticas ao governo de Jair Bolsonaro (PSL). Após a anulação da prova, uma nota de repúdio assinada por 450 alunos e ex-alunos do colégio foi divulgada como forma de protesto contra o ocorrido. 

A prova em questão, a penúltima do ano na disciplina de Língua Portuguesa, foi aplicada na última segunda-feira (7). Segundo a carta dos alunos, ela trazia sete questões de múltipla escolha e três discursivas que deveriam ser respondidas com base em dois textos, um do comediante - que também é um dos criadores do canal de humor Porta dos Fundos - e outro do cientista político e doutor pela Universidade de Oxford Mathias Alencastro. 

"Esse governo é um gatilho poderoso para depressão. As queimadas, o apocalipse iminente, a recessão inevitável, o desemprego crescente, a vergonha mundial. O presidente parece eleito pela indústria farmacêutica pra vender antidepressivo", diz Duvivier. Já o segundo texto, que fala sobre a "batalha" entre Bolsonaro e a adolescente e ativista do meio-ambiente Greta Thunberg, inclusive traz uma crítica ao governo petista, ao dizer: "No poder, o PT, que recorreu à ONU para a liberação de Lula, ignorou alegremente as injunções sobre a calamidade sócio-econômica de Belo Monte". 

Após uma imagem da prova vazar na redes sociais, diversos perfis ligados a movimentos de direita passaram a replicá-la. Alguns deles, inclusive, com o telefone da instituição de ensino, sugerindo que uma "pressão" fosse feita. 

Na carta de repúdio, os estudantes afirmam que o texto tão criticado "ia de acordo com as diretrizes da disciplina", já que, ao longo do ano letivo, foram trabalhados em sala de aula os diferentes gêneros textuais, como artigos de opinião, crônicas e resenhas e, inclusive, no terceiro trimestre, as aulas teriam sido destinadas aos textos humorísticos e os recursos usados por autores para o desenvolvimento do humor.

"Logo, o texto de Gregório Duvivier, selecionado pela professora, em nenhum momento visa à doutrinação dos estudantes, muito menos à propagação de ideologias político-partidárias. Ademais, é importante destacar que, das quatro questões referentes ao texto, uma é relacionada à colocação pronominal, e as outras três à estrutura característica dos textos de humor. Portanto, nenhuma das questões da avaliação exige posicionamento político dos alunos. Não há teor ideológico em nenhum dos exercícios propostos", argumentam os estudantes.

A carta ainda critica as várias postagens que, inclusive, diziam que o texto era destinado a crianças, já que, na realidade, a prova era para jovens de 17 anos. "Essas críticas subestimam nossa autonomia e senso-crítico, e partem do pressuposto que um único texto, com menos de 30 linhas, seria capaz de moldar nossa opinião, supostamente ingênua e infundamentada", dizem. Por fim, eles repudiam os ataques direcionadas aos professores do colégio Loyola, mas contestam, também, o posicionamento da instituição ao anular a prova, o que, para eles, "ameaça a autonomia dos professores". 

Confira a nota de repúdio na íntegra: 

A escola 

O Hoje em Dia conversou com o diretor acadêmico do colégio Loyola, Carlos Freitas, que explicou que a instituição, que está há 76 anos na capital mineira, segue a orientação do próprio Ministério da Educação (MEC) ao abordar os chamados "temas transversais", que visa incluir no ensino a questão social, ética, do meio ambiente, política e outros temas que não são exclusivos de nenhuma disciplina, mas que fazem parte da vida dos alunos. 

"Em 2018 os próprios professores criaram um documento sobre essa abordagem dos temas transversais, que previa, entre outras coisas, que, se fosse utilizado um texto que defende uma questão política qualquer, deveria haver outro com posição contrária. O que aconteceu foi que estamos em um período de final de ano, professores muito atarefados, e a coisa passou batida. Quando nós vimos já tinha sido aplicada a prova. Diante das reclamações de alguns alunos, decidimos anular a prova e a professora fez um novo teste que será aplicado na semana que vem. Para não haver nenhum prejuízo, caso o estudante se saia mal no novo teste, a nota que prevalecerá será a maior", explicou.

Ainda segundo Freitas, a anulação aconteceu antes mesmo da imagem da prova chegar até as redes sociais e a escola passar a receber centenas de ligações e mensagens na internet questionando a utilização do texto. "O conselho diretor se reuniu e decidiu anular a prova. Isso foi feito com toda tranquilidade, a professora, que tem mais de 10 anos de casa, é muito querida pelos alunos e não há qualquer possibilidade de retaliação ou punição. Ela continuará na escola por muito tempo", garante. 

O diretor acadêmico ainda elogiou a postura dos alunos, que divulgaram uma nota de repúdio em defesa da professora. "Algumas pessoas estão transformando a nossa decisão, meramente pedagógica, em censura. Os meninos fizeram uma nota de repúdio e eu expliquei toda a situação para eles e os congratulei por terem defendido os professores dos ataques", concluiu. 

Duvivier se oferece para encontrar com estudantes

Nesta quinta-feira (10), Gregório Duvivier comentou em suas redes sociais a anulação da prova que trazia seu texto. "Colégio Loyola em BH usou um texto meu numa prova e um grupo de pais de direita conseguiu cancelar a prova. Sinto muito pelos professores e alunos da escola. Dia 1 estou indo a BH, se quiserem encontrar pra debater a crônica e a censura", disse. 

Em seguida, ele também compartilhou a nota de repúdio feita pelos estudantes. "Uau! 450 alunos e ex alunos do Loyola escreveram essa carta de repúdio. Obrigado mesmo. A escola já deve ter sido muito bacana pra formar tanta gente crítica. Sinto muito", escreveu. 

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