Vitoriosa em diversos esportes, a China lança uma estratégia para também ser competitiva agora no futebol, o esporte mais popular do planeta e até hoje fonte de vergonha nacional para um país com ambições de ser superpotência. Nesta semana, as autoridades de Pequim publicaram seu plano para revolucionar a prática do esporte no país e, finalmente, ter um time competitivo. No centro da estratégia, a introdução de treinadores de futebol a 50 mil escolas nos próximos dez anos e com apostilas que vão ensinar milhares de chineses a arte da bola.

A meta é ambiciosa: identificar 100 mil jovens que poderiam ter o potencial de se tornar jogadores profissionais. No total, sete volume de livros estão sendo preparados e o presidente do país e fanático pelo futebol, Xi Jinping, já deixou claro que o esporte passou a ser uma obrigação no curriculum. Tudo está minuciosamente planejado, de acordo com os documentos oficiais do governo. Os planos foram apresentados para especialistas na Fifa dedicados ao desenvolvimento do futebol.

Para os alunos da terceira e quarta série, por exemplo, os livros vão ensinar as técnicas básicas, como "equilibrar a bola". Já os estudantes da 5.ª e 6.ª séries se dedicariam a técnicas "mais complexas", como manter a bola sem tocar no chão, usando várias partes do pé.

Em um primeiro momento, a China passaria de 5 mil escolas com treinadores para 20 mil em 2020. Até 2025, treinadores atuariam em 50 mil locais. Até 2017, cerca de 20 mil escolas contarão com campos de dimensões oficiais. Já em 2016, o futebol vai ser incluído como uma das possibilidades de exames para que um aluno tenha acesso à universidade.

O plano não se limita à próxima geração. Os documentos sugerem que a China deve organizar a Copa do Mundo, como forma de impulsionar o esporte. Na Fifa, a proposta foi aplaudida. Com 1,3 bilhão de pessoas, o país seria a "nova fronteira" dos lucros do futebol. Recentemente, a Índia vem demonstrando que existe espaço para o esporte em culturas onde o futebol jamais prevaleceu, superado por Honduras, um país com a população de uma cidade.

Assim como na Índia, na China o desempenho da seleção jamais entusiasmou. Em 2002, o país se classificou para sua única Copa do Mundo. Mas saiu do torneio sem marcar um gol. A seleção é a 83.ª no ranking da Fifa, superada por países com população que caberia em um subúrbio de Xangai.

O plano prevê ganhar gradualmente um novo status. De acordo com o documento do Conselho de Estado, a primeira meta é a de "trazer o time nacional para o mesmo nível que as demais seleções de ponta da Ásia". Em 2013, a seleção chinesa foi humilhada pelo juvenil da Tailândia, com a derrota de 5 a 1 em casa. Torcedores romperam a ordem e desafiaram o regime autoritário para quebrar carros e protestar. O jogo, por coincidência, aconteceu no dia do aniversário de 60 anos de Xi Jinping.

A estratégia também passa por uma limpeza na federação de futebol, atolada em escândalos de corrupção e de compra e venda de resultados das partidas da primeira divisão. Além de uma nova organização da federação, um conselho separado será criado para organizar e promover uma liga profissional.

Não é a primeira vez que a China se lança em um esforço para desenvolver um esporte no país. Anos antes dos Jogos de 2008 em Pequim, as autoridades fizeram o mesmo para dezenas de modalidades. Quando o evento foi organizado "em casa", o resultado foi a liderança no quadro de medalhas de ouro.

BERÇO DO FUTEBOL

 Se o futebol é ainda incipiente na China, a realidade é que historiadores e mesmo a Fifa confirmam que o país foi berço de um dos jogos que deu origem à modalidade, anos antes de Cristo. Em 2004, a organização máxima do futebol declarou que o "cuju", praticado na China ainda sob a dinastia Han (206 a.C-220 d.C), seria uma das origens do futebol. De fato, uma das imagens mais antigas do que poderia ser o jogo também é encontrada na China, ao pé da montanha Songshan, e datada de mais de três mil anos.

Em seu livro "Traves de Bambus", o escritor inglês Rowan Simons conta que outro registro do que seria a origem do futebol pode ser encontrada em escritos de Han Li You, no primeiro século depois de Cristo.

O texto deixa claro a base do jogo: "a bola é redonda, o campo é retangular". Longe de bolas de meias ou improvisadas, elas chegaram a ser feitas de seda e, segundo Rowan Simons, com certa tecnologia. Mas o futebol acabou desaparecendo quando Gengis Khan passou a dominar vastas áreas do país e introduziu outras modalidades de "esportes".