Conflitos entre policiais civis e militares podem comprometer integração

Aline Louise e Renato Fonseca - Hoje em Dia
14/05/2015 às 06:24.
Atualizado em 17/11/2021 às 00:01
 (Ricardo Bastos / Hoje em Dia)

(Ricardo Bastos / Hoje em Dia)

No último domingo, por volta das 15h, o investigador da Polícia Civil Eder Lauar, que trabalha em BH, foi visitar a família em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. Quando estava na casa de um tio, foi abordado por dois militares. “Eles começaram a gritar que eu estava armado. Respondi, calmamente, que sim, pois era policial. Eles apontaram as armas e não me deram ouvidos”. Foi então que começou uma briga.


Lauar afirma que foi agredido, algemado e colocado dentro do camburão. Só foi liberado após a intervenção de uma delegada da cidade. A PM teria alegado que o investigador seria suspeito de um possível crime. “Não souberam explicar nada. Agora vou até as últimas instâncias para fazer Justiça. Eles cometeram tentativa de homicídio, cárcere, lesão corporal, dentre outros crimes”.


Em nota, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) informou que “tomou conhecimento do ocorrido e acompanha as devidas providências”. A Seds acrescentou que considera a ocorrência como um caso isolado, que, “de nenhuma forma, compromete a integração entre as forças de segurança de Minas Gerais”. A Polícia Civil de Teófilo Otoni abriu inquérito para apurar o caso.


Do fim de 2014 até agora, este é pelo menos o quarto caso de conflito entre policiais militares e civis. Dois na região do Vale do Mucuri. Em setembro passado, em Malacacheta, uma confusão no registro de uma ocorrência, o investigador Vandir Rodrigues Ferreira acabou morto, por seis tiros que partiram da arma de um militar.


Em BH, no bairro Pongelupe (Barreiro), no fim de abril, três policiais militares teriam trocado tiros com a investigadora Fabiana Aparecida Sales e o marido dela, o mecânico Felipe Sales, de 32 anos, que acabou morto.


“Guerra”


O presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil de Minas Gerais (Sindpol), Denilson Martins, diz que há uma “guerra” entre as duas corporações no Estado. Para ele, a integração das polícias não funcionou e há uma disputa por poder entre as duas instituições.


Segundo Denilson, há ainda “usurpação”, por parte da PM, de atribuições que são da Polícia Civil, origem dos problemas. “A solução é a aprovação de um manual de procedimento básico estabelecendo as atribuições indelegáveis de ambas as instituições”.


O vice-presidente da associação dos praças policiais e bombeiros militares de Minas Gerais (Aspra), sargento Israel Antônio Sanches Ventura, ameniza os conflitos e diz que são “casos isolados”, apurados com “todo rigor”. Para ele, a saída para os “estresses” entre as duas corporações está na adoção de um modelo de polícia de ciclo completo, que vai além da integração.


Mudança


Este também é o sistema defendido pelo professor da PUC Minas, Robson Sávio Reis, especialista em estudos de criminalidade e segurança pública. Para isso, seria necessário uma mudança na Constituição Federal.


Robson explica que a polícia de ciclo completo atuaria em todos os aspectos – prevenção, repressão e investigação – e a gestão seria de responsabilidade dos estados. “Aqui em Minas Gerais, por exemplo, que tem 853 municípios, poderia ter 40, 50 policias, se dividíssemos o Estado em territórios. Estas policias atuariam num determinado conjunto de cidades, mas com ciclo completo”.


“As tentativas de integração, nos últimos 30 anos, fracassaram. Na maioria dos países já se adota o ciclo completo” Robson Sávio - professor


 

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